A divina Loucura de Erasmo de Roterdã

March 14, 2018

 

De um só fôlego, a Loucura tece seu autoelogio e revaloriza sua importância no mundo e na vida pelo viés do contentamento, da alegria e da embriaguez. Seu discurso atribui à sua ausência toda a tristeza, a inquietação, o humor de caverna, as trevas, o rigoroso inverno.

Em seu Elogio da Loucura, Erasmo Desidério conduz à reflexão sobre o predomínio da repetição e o mínimo de razão na criança, o que talvez indique ser a natureza humana provida de uma tendência ao desvario, tolhido pela razão, que num velho, tornar-se-ia insuportável se vivida em sua totalidade com todo o fardo de sua experiência; ao invés disso, o velho frui o prazer de mexericar, vantagem que lhe cabe até em relação à criança.

Mais adiante, a Loucura assevera que as ilusões do engano, da adulação, da complacência, dos jogos, da dissimulação, dos ardis, da amizade, do casamento, etc. são produtos de suas próprias mãos. Contrariamente, é da razão que se insurgem os divórcios, a insegurança, os rompimentos, os tormentos, o ciúme, a confusão, a desordem, a violência, a tragédia.

Além disso, os loucos não temem a morte, conhecem a satisfação da boa consciência; em vez dos infernos, espectros e almas que afligem e inspiram os sensatos, os loucos apenas conhecem os céus, que lhes trazem paz e tranquilidade da alma. As preocupações nunca lhes mutilam, porque também não conhecem a vergonha, o temor, a ambição, o ciúme, a ternura. Os loucos são os seus brutos impecáveis.

Portanto, mesmo no esplendor de toda a sua divindade, a Loucura não se sente vítima de ingratidão porque os loucos não lhe rendem sacrifícios semelhantes aos de outros deuses. Não se contentaria com tão pouco. Opta por considerar o culto que uma grande parte da humanidade lhe confere, na sua conduta, nos seus impulsos e nos seus costumes.

No entanto, os monges, os frades, os padres, os tradicionalistas, que não querem se assemelhar uns aos outros nem a nenhum outro, nem mesmo a Cristo, se inspiram na felicidade que a própria Loucura lhes proporciona durante a experiência que tiveram na ignorância, na recitação de salmos que não compreenderam, nos jejuns, nas cerimônias, na recusa do dinheiro, no claustro, na solidão, no canto, etc.

Finalmente, Erasmo conclui o seu Elogio da Loucura como antegozo da bem-aventurança eterna, lembrando que os santos de fato são os que a possuem. Depois ela pede seu aplauso e se despede.

 

In: Desidério, Erasmo. Elogio da Loucura. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2003. 144 p.

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