O GUETO DOS PALHAÇOS

May 18, 2018

 

A filósofa dizia que a filosofia poderia servir para os excessos da vida como um par de óculos escuros pode servir para o excesso de claridade.

Terá sido bombardeada pelo conhecimento ou desistia de conhecer para além do que pudesse no tempo restante de sua vida. Temia que não pudesse ler todos os livros que tinha adquirido. E mesmo que lesse talvez perdesse contato com o mundo em suas cores.

Contudo, não há necessidade de justificar a filosofia. Pelo menos não como um todo. Talvez seja necessário que alguns supostos filósofos justifiquem o que cada um chama de “a sua filosofia”, mas a filosofia como um espírito não carece de justificação.

O tabuleiro não pode ser tratado como o bolo. O tabuleiro dá forma inexoravelmente; mas o sabor, a consistência, a cor, o cheiro e outras características do bolo, estes sim precisam de explicação, justificação, análise, condenação ou elogio.

E de negação ou muito desprezo até. Porque se se propõe agradar alimentando, que seja com os melhores ingredientes à mão. Se não estiverem à mão, busca-se uma fiel adaptação; se nem assim é possível conceber o bolo direito – que o boleiro se explique.

Talvez seu bom humor, sua real intenção de alimentar e, quiçá, agradar, empreste ao bolo um sabor inusitado. E que guarde o tabuleiro para uma situação em que possa fazer melhor. Quem sabe o próximo bolo não careça sequer de explicação para agradar.

Do contrário, ele que se desfaça do tabuleiro e entregue-o a um boleiro que possa fazer bolo e vá procurar outra profissão. Talvez só esteja insistindo num ofício avesso a si.

Ninguém, porém, questionará, nem precisará justificar a importância do tabuleiro se não tiver algum problema severo com a realidade. Como? Um boleiro se explica, mas uma mulher? Desfazer-se do tabuleiro? Não deixaria assim um vácuo pela casa? E não arriscaria ficar sem uma das cada vez mais escassas formas de agradar?

Com efeito, no afã de justificar a filosofia e sua profissão, a filósofa correu o risco de esbanjá-la. Da mesma forma, Nietzsche passou sua filosofia inteira tentando justificar a sua obra sem que o precisasse. Por isto é que sua metafilosofia parece mais um luxo.

Precisamos filosofar e nisto não há dúvida. Os religiosos filosofam, os filósofos cultuam; os cientistas filosofam, os filósofos experimentam; os artistas filosofam, os filósofos fazem arte. A questão é que viram dilema onde não há.

Se eu fosse um adolescente, ia tratar de arranjar namorada, sim. É a época mais propícia para isto, o corpo responde aos anseios com menos sofreguidão, com mais vitalidade. O mundo ainda não está anuviado na nossa frente. Vemos suas cores, ouvimos os seus sons, percebemos seus odores, sentimos a pele e os sabores do mundo com muito mais vivacidade.

Porém, um movimento combinado entre o estado e os pais protege por demais aqueles meninos e aquelas meninas. Dizem que precisam estudar. Mas, como? Estudar não deveria ser algo para sempre? Não estariam os jovens estudando mais a fundo a existência e a vida se estivessem aos casais do que enfileirados nas carteiras escolares?

Não. Fazem um cursinho de informática ou de inglês e consideram que já estão formados. Partem para o trabalho, para a busca do status, mas não conhecem quase nada da vida em comum, da família, da educação dos filhos, da transcendência como pessoa. Os criadores são largamente influenciados pelas massas, os procriadores ficam em casa e nos botequins enquanto suas mulheres vão à igreja rezar.

Os adolescentes são tolhidos na sua vitalidade. Os pais e os professores, que mais parecem apaixonados pelos filhos e alunos adolescentes de maneira quase sensual – enganam-nos.

Os filhos pensam que estão sendo educados e protegidos; quando na verdade os pais e professores ainda não resolveram a própria sexualidade. Porque todos estão em formação e em plena transformação.

Atribuem aos filhos os cursos universitários que sonharam em frequentar. Sofrem de síndrome de ignorância tardia e estão mais perdidos do que os filhos.

Os adolescentes, já a partir dos treze anos deveriam ser pais – se fosse assim, quando chegassem aos vinte e seis já seriam avós em vez de estarem casando – muito mais dignamente do que os homens que se envergonham de serem avós aos cinquenta.

Porém, aqueles pais fogem da coroa da velhice porque esta coroa aumenta-lhes a libido na mesma proporção em que lhes diminui a oferta de sexo. Sim, parecem mais feios, menos proporcionais, mais enfermos, quem vai desejá-los que seja digno de uma investida?

Se tivessem resolvido e vivido tudo isto desde cedo, fruído toda a beleza, toda a juventude, todo o apreço pela vida e pelo mundo na adolescência, em vez de ficar no quarto jogando videogame ou sendo levado para lá e trazido para cá pelos pais, provavelmente não viveriam esta morbidez já nos quarenta ou cinquenta anos de idade.

Isto poderia ser atribuído ao problema de segurança. Mas a questão da segurança está vinculada a tudo isto. Para dizer melhor, os problemas de segurança, os mais graves deles, nasceram desse estado de coisas: excesso de proteção, repressão do sexo entre os jovens, medo da velhice, medo da miséria, ignorância e incompetência dos pais e do estado, etc.

É certo que com os feminismos e os ativismos sem juízo, haveria muitos divórcios se fosse comum que os adolescentes casassem bem cedo. Porém, duvido muito que, se os jovens casassem bem cedo há muito tempo, existiria qualquer feminismo ou ativismo. Não careceriam em homens e mulheres de nenhuma dessas tábuas de valor.

Tudo ofende o homem de hoje. É tão débil que sequer chegará até este parágrafo deste texto. É tão depauperado que sequer indaga, em função das más interpretações que a dúvida traz. Está todo cheio de certeza e de silêncio.

Nem podemos chamar homem o homem comum de hoje. É apenas um esboço, um fantoche nas mãos da mídia e do estado. Não sabe quem é ele, nem tem coragem de descobrir.

Veja esses que se dizem filósofos hoje. Matracas que não tem nem mesmo a noção de “melhor e pior” ao ponto de um colocar em plena capa de um livro alg

 

o como: “contra um mundo melhor”. Se a filosofia estava uma vez para deliciar, com aquele dito filósofo estamos tramados.

Veja o outro que parece ter retornado ao ano zero e prega o evangelho de paulo como se fosse um ministro da igreja cristã fundada por este último, veja como é ele que ensina filosofia há mais de trinta anos. Se em trinta anos, ele não apurou o gosto...

Então, vejamos. Estes que se dizem filósofos não apuraram o próprio gosto. Parecem mais vendeiros do que tudo. Não sabem o que é nobreza nem mesmo a primitiva nobreza que poderia estar chegando aos seus calcanhares, já que são velhos. Um filósofo não pode jamais lembrar o ignóbil como esses pequenos exemplos.

E se é assim com eles que têm acesso à palavra, ao discurso, aos prelos, e à academia, imagine-se os simples e os últimos procriadores! Quão dissaboridos não devem estar os homens-comuns por dentro! Já que por fora estão sempre a mostrar os dentes, feitos hienas.

Porém, a filósofa dizia que a filosofia poderia servir para os excessos da vida como um par de óculos escuros pode servir para o excesso de claridade.

Bem mais sensata ela. Creio que ela estava fazendo essa mesma avaliação que faço até aqui em relação a esses leões amansados. Nietzsche usava luvas. Devia sentir pelo tato. Ela colocou óculos escuros. Talvez enxergue longe. E eu, seguindo a lógica dos sentidos, opto por colocar um apertado nariz de palhaço.

Farejo. Farejo sim. Farejo longe como um cão fiel ao seu dono-homem e que o protege desses não-homens. Foram eles com sua filosofia de donzela que nos trouxeram até esta vida pobre que estamos vivendo. Não que as donzelas não mereçam crédito. Mas para elas geralmente o sonho com um príncipe basta. E não é disso que se trata a vida e o mundo.

 

 

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