CONGRATULATIONS AND HAPPINESS, YOUR HIGHNESSES

May 20, 2018

 

E sem ter experimentado da fruta o jovem poeta romântico diz que o casamento é instituição falida. Ocorre, porém, que a criação depende da procriação mais do que o contrário.

Um poeta romântico se tornaria assaz enfadonho em sua criação se não fosse casado (ainda que divorciado) ou não tivesse filhos. O mesmo não ocorreria com um procriador, que nada precisasse criar para se divertir muito e divertir muitos com as peripécias e aventuras que pode viver em família.

O criador que não é também um procriador atormenta como um elefante que incomoda muita gente. Já um procriador que não é um criador, é ainda um procriador, que, se não for um bêbedo ou um alienado, pode viver sem se tornar um demônio.

Platão parecia exigir, na sua pretensão importuna, que o poeta fosse um procriador que reunisse o útil e o agradável. Ao passo que os poetas românticos, como aquele que condena o casamento, investem em juntar o inútil e o desagradável numa aleivosia ao que lhes deu vida: o próprio casamento.

Seria negar-se a si mesmo e à sua existência dizer que antes seus pais tivessem ficado solteiros. Seria se odiar! Seria se reprovar! Devia ser o poeta do trágico porque é mais fácil arrebanhar assim tragicamente com lamentações, compaixão e terror, do que rindo e fazendo rir, como fazem rir os poetas realistas e naturalistas.

Ou seria uma frustração por estarem se aproximando os limites da idade de casamento para um homem razoável, e o poeta, o jovem poeta romântico, sente-se atrasado nos deveres de homem. Está dividido entre parecer razoável e permanecer insensato.

Se for investir na criação precisará investir pesado sem quem lhe lave a roupa ou lhe cozinhe a sopa. Se for investir na procriação, dependerá inexoravelmente da mulher, o que foge ao controle do poeta, que deseja controlar tudo, obter lucro e não gastar com nada. Porque todo poeta romântico é avaro – segundo platão.

Daí ele vocifera. Profana a vida com palavras de insensatez em todas as direções sem olhar nos olhos de ninguém. Se tivesse casado antes de se tornar poeta, isto talvez se desse de maneira diversa.

Mas existe uma fina obstinação em dizer “olha que criança linda. Como pode ser tão inteligente? Puxa, as crianças de hoje estão tão inteligentes”. E o poeta ouviu isto de tantas maneiras e em tantos formatos que teve a impressão absurda de que ser inteligente bastaria.

As mulheres principalmente adiantam a tragédia das gentes. É muito mais difícil ouvir-se um homem elogiando e rindo-se da natural inteligência das crianças do que uma mulher.

Quando o poeta observa atentamente, não sabe onde está, quem é, para que serve. As mulheres recebem em retorno o poeta em diversas roupagens, fazem dele gato e sapato. Quando ele envelhece, elas todas o abandonam em frangalhos e ele envelhece antes de ficar sábio, como aquele personagem de Shakespeare.

E dizemos quando porque ele nunca se observa. Para ele está sempre tudo azul. Sempre lindo, cheiroso, bem-vestido, rodeado de amigos. Observar-se para quê? Ele se sente o maioral entre as plebes de uma monarquia que também condena – ainda que se sinta um príncipe!

Se sente o maioral desde criança. Porque só ele é inteligente. Só ele chega nos limites do videogame com apenas dois aninhos. Só ele faz perguntas que os pais não sabem responder de pronto.

Condena a monarquia porque sabe que um baronato, por exemplo, pode

 

ria ser muito difícil alcançar. E, como não é amigo do rei, ficaria ensombrada a sua figura encardida, como o Bandeira em busca de sua Pasárgada. Donde optar por ser o senhor da Plebe. Porque, se a monarquia é repelida, a Plebe é defendida com unhas e dentes pelo poeta romântico.

Que é que alguém faz do silêncio? Da solidão? O Rainer Maria Rilke ensinava ao jovem poeta (que talvez não fosse tão romântico assim) que mesmo se estivesse num cárcere, muito ele teria de escrever pensando na sua infância, lembrando sonhos, etc.

Mas as memórias do cárcere servem para quem mesmo? Para quem pretende estar contra a corrente sempre, sem pesar as palavras e os gestos, sem medir os passos e os solavancos dentro do trem lotado, talvez.

O cárcere para quem se considera inocente não carece de justificação ou memórias porque fora dele estão os amigos; e para quem não é inocente também as memórias são inúteis – que desacreditadas.

De modo que o poeta Rilke contava com o cárcere por conta da solidão que devotava à vida, talvez fosse mesmo um cárcere em si a sua vida solitária; mas prender-se intencionalmente à solidão e com o custo do tormento aos amigos e familiares é indício de alienação.

O jovem poeta romântico diz que o casamento é instituição falida. E a emancipação a dois é muito mais largamente observável do que os projetos de emancipação de muita gente que se reprime, adoece e morre só, sem que nada crie nem mesmo procrie.

Todavia, o ideal seria mesmo o contrário: que os homens buscassem uma forma de emancipação em que pudessem criar e procriar sem que houvesse dilema nestas duas esferas da existência. Só assim estariam garantindo, ao menos de sua parte, uma interação instintiva e racional no processo civilizatório.

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