A INTELIGÊNCIA GAIA DO POVO BRASILEIRO

May 24, 2018

 

Faz dezesseis anos que o povo brasileiro dava as tripas para o último demagogo se enforcar. Ele devia ser eslavo, etrusco, lusitano - algum tipo que foge à verdadeira brasilidade brasileira.

O anterior ao demagogo, aquele misto de oligarca e aristocrata então, talvez conhecesse um pouquinho da nossa gente no que ela realmente é. Armou a cilada fatal "das esquerdas" que hoje se estrebucha e agoniza ante o caos que se torna a vida brasileira que balança mas não rui.

Quando não isto, ele próprio foi o precursor do amargor que se vive no dia de hoje.

Que amargor? Perguntam os ricos de “esquerda” e os pobres de “direita” a nós que estamos no meio de nós mesmos; perguntam todos aqueles, que usam no dia a dia essas expressões, tornadas movimento corporal e até respiração, saudosos da guerra fria.

As notas que tem recebido nos últimos anos das suas provas de português e matemática no nosso eterno primário de caminho suave estão baixas.

Olha para o chileno, para o argentino, para o uruguaio, etc. – Soberbo com seus cocares e suas flechas. Cego. Quer conquistar. Onde já se viu? Aprendeu tanto os macetes das conquistas todas que reverberam por esse mundaréu, que agora só pensa em conquistar.

O Brasil quer conquistar. E é cômica a sua comunicação com as potências.

Brilham os seus olhos quando desconfia que está diante de algo nobre, muito nobre – e o segredo que os brasileiros descobriram é que para eles nobre é o que eles querem nobre e não o que os dizem sê-lo. E não se contentariam jamais com menos que isso.

Está acostumado com o brilho do sol por sobre o mar e seus pássaros e sua flora e suas cores e odores. Sabe o que tem de seu. E observa que, assim como quer conquistar o conquistável, luta para não ser conquistado por quem quer que seja – deixa de ser conquistável. Está feito. Adulto bastante. O Brasil quer casar.

Vamos dar a ele uma esposa. Ficou encantado com o casamento de sua alteza o Príncipe Henrique. Acha que, se o Henrique casou, quanto mais ele.

Porque o Henrique é um príncipe poderoso. E o Brasil é um lugar quiçá mais poderoso ainda do que sua alteza recém-casada, em termos de homens.

Os homens do Brasil, desde os mais singelos das Minas Gerais até os mais desconfiados de São Paulo, para lembrar o Joaquim Maria, são todos uns profundos, uns intensos, uns mentais como o Henrique que pensou tanto para casar. É que ele, o Henrique, assim como os homens do Brasil, sabem muito bem que casar não é como comer cajá. Precisa acreditar que se nasceu muito bem, o que demora.

Sabe que quando a gente casa, vem a roda viva e carrega o destino pra lá. Sabe que as mulheres são lindas como as de Atenas derno de quando o Francisco Buarque de Holanda cantou a canção pedindo isso a elas. Já passaram de meninas, moças, mulheres, velhas de Atenas.

Finalmente o Brasil "enforcou o último demagogo com as tripas do antipenúltimo juiz”, para recorrer um pouco a Mauricio Campos.

Agora cabem em suas conquistas as buscas pelos outros inimigos: os aristocratas e os oligarcas. Esses são um pouco mais difíceis de enfrentar porque estão camuflados e infiltrados com os homens de bem; mesmo assim, o Brasil chega lá porque o demagogo era o mais defendido pelo povo nos tempos que corriam quando de sua expiração. E mesmo assim expirou.

Estejam, pois, prontos, aristocratas e oligarcas. Já temos uma ideia da ordem alfabética da língua portuguesa, a começar pela (a)ristocracia, os senhores provarão do próprio veneno que estará na ponta das nossas flechas. Fiquem velhacos.

Que o Brasil está amargo e solteirão invicto querendo casar. Estão vindo muitas pretendentes refugiadas das supernovas do mundo porque sabem que o Brasil está pronto, é lindo, pode dar muito filho gente, e filha gente, guardou alguns dentes na boca. É produtivo, criativo e procria bem. Prontíssimo para o altar, esqueceu como rezar, cantar, dançar e macumbar, mas vai ter de aprender tudo de novo, que sabe carnavalizar – e sabe também que carnavalizar dá no mesmo que recomeçar.

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