Entrevistando o entrevistador para o Instagram!

June 10, 2018

 

 

 

Hoje publico a entrevista que dei para a jovem Helena Trauzzel, do Literamei, publicada também no Instagram, a propósito da participação no Prêmio Jabuti com a obra de minha pena, Caminhos Abertos, aproveitando minhas férias. Veja só!

 

(Eduarda - Literamei): O caminho até a escrita ocorre das mais variadas formas. Na sua vida, como isso aconteceu? 

 

Foi uma série de movimentos que me levaram a trilhar este caminho. Meu pai me queria mecânico e minha mãe me queria médico. Mas minha irmã, Ivani, amigona desde a adolescência, me motivava a escrever porque dizia que eu era “expressivo” e “engraçado” no texto. Depois encontrei Léo de Carvalho, poeta de mão cheia, que escrevia ininterruptamente seus milhares de poemas em prosa poética. Aos dezesseis anos, decidi compilar, datilografar seus textos; mas ele só se deixou convencer a publicar recentemente. Eu fiz a edição do livro de poesia dele.

Depois, participei ativamente do grupo de teatro Lume d’Arena, que tinha o apoio da prefeitura de São Paulo. Como os atores foram se dispersando com o tempo, decidi me manter em voo solo apenas com poesia. Escrevi mais de quinze livros contendo poemas de uma fase que se iniciou nos anos 90 e até hoje não terminou.

Apenas se arrefeceu, porque em 2006, eu decidi escrever prosa. E foi nessa nova experiência que saiu-me o Post Scriptum. Recebeu este nome porque seria a cancela de toda a minha obra. Eu não escreveria mais nada depois dele, nem em verso nem em prosa.

Porém, fiquei empolgado. Achei que o trabalho em prosa era bom e importante também. E nessa empolgação vim escrevendo até aqui. Total de 15 livros em prosa além de traduções para inglês e para português e além da poesia.

 

(Eduarda - Literamei): A faculdade de letras moldou a sua criatividade ao escrever ou apenas deu as ferramentas corretas para atingir um objetivo? 

 

A faculdade de letras me foi importante para o magistério. Apesar de que seria um magistério-fantasia, uma vez que quando entrei para a escola da rede estadual levei um susto com a disparidade entre a teoria e a prática da educação.

Alguns professores foram essenciais para qualificar o que eu já tinha feito havia anos. Aliás, apenas qualificar, nenhum deles jamais fez menção à minha obra poética.

As ferramentas para a escrita em prosa foram importantes. Os professores Carlos Francisco de Morais, Ana Maria Polônio, Guaraciaba Michelete, Elisabeth Cury, etc. e depois, no mestrado, a orientadora, Munira H. Mutran, foram importantes para me tornar um pouco menos ininteligível. A maioria dos demais eram intelectuários, não intelectuais propriamente.

 

(Eduarda - Literamei): Na tentativa de alcançar uma notoriedade no mercado editorial, muitos escritores se moldam e perdem a essência. Não parece ser o seu caso. Então, qual é o segredo para manter a personalidade ao escrever?

 

Creio que não perdi minha essência, não... hehehe. Jamais. Só fiquei burro-velho mesmo, aí a gente vira mexeriqueiro, quer cuidar da vida alheia. Inclusive numa entrevista que fiz com Angel Cabeza sobre este assunto, ele diz que é bom para o escritor tomar contato com o mercado e saber o tamanho desse monstro para ter consciência de que a coisa não é nada bonitinha e romântica.

Mas para comprovar que não perdi a falsa-inocência, e contrariando meu colega, veja que, em Caminhos Abertos, logo no título esbarro com a pecha de rapazinho ingênuo. Como? Mas nos dias de hoje todos os caminhos não estão fechados? Quem é esse autor que assevera o contrário? É justamente disso que se trata o livro.

 

(Eduarda - Literamei):  A sua obra, intitulada "caminhos abertos", é um convite para que reflitamos sobre alguma questão em especial? (Em caso de resposta afirmativa, peço que você aborde a questão).

 

Sim. Várias questões. A temática e a força-motriz da obra levam ao leitor grandes oportunidades de reflexão: religiosidade, traição, adultério, loucura, independência cultural e econômica, a busca da felicidade com o parceiro que se ama, o quanto uma decisão interfere e influencia as ações do nosso entorno, entre muitos outros pontos abordados hoje entre os novos adultos.

 

(Eduarda - Literamei):  Como leitora, devo confessar que me senti acolhida pela reflexão que o livro parece propor: somos jovens demais para aceitar uma vida infeliz, mas podemos também nos deparar com um futuro no qual é impossível retomar o que aconteceu no passado. Qual foi o seu maior desafio ao escrever tal reflexão?

 

Justamente isto. Lidar com as possibilidades do futuro. Em Gilberto Freyre, me tornei ávido por imaginar o futuro como ele propõe. Nada de metafísico. Muito pelo contrário, pés no chão. É o que o sociólogo chama de “futurologia”. Precisamos, cada vez mais, propor e imaginar futuros possíveis, ainda que nada do que imaginemos se dê na realidade. Não se trata de “previsões de videntes”, que também têm o seu valor. Não. Trata-se de, no decurso da imaginação, aliada às ciências, e às outras áreas de conhecimento, encontrar possibilidades, futuros plausíveis. Isto está na agenda do chamado novo adulto, que é o destinatário da minha obra.

 

(Eduarda - Literamei):  O livro foi inspirado em alguma situação específica?

 

Sim. No que temos assistido de encontros e reencontros que se dão à larga pelas redes sociais. Apesar dos problemas que vimos encontrando em relação à banalização da privacidade, problemas políticos e econômicos até; apesar desses problemas, encontramos também soluções para os casos de amor, para os casos de amizade intensa que ficaram para trás seja no espaço seja no tempo, para os casos de dívidas que ficaram descuradas, agradecimentos que não foram feitos, e com as redes sociais é possível resgatar muito disso, que é abordado em Caminhos Abertos.

 

(Eduarda - Literamei): No livro, o amor parece ser uma constante luta: duas pessoas que ultrapassam diversos obstáculos e, naturalmente, levam os outros a buscarem a felicidade. Por qual motivo foi tão importante abordar a temática do amor versus felicidade?

 

É uma boa pergunta. Talvez o amor não traga felicidade mesmo. Mas imagino que para mulheres como Isadora, a heroína da trama, e no caso de Arthur, o amor representa não apenas a felicidade como também a sobrevivência do casal egoísta e contrário ao modelo preconizado por Flavio Gikovate. O psiquiatra propunha que os generosos se unissem contra aquele tipo de relação entre o generoso e o egoísta. O tipo de relação que gerou os inúmeros divórcios de nossa época. Com a perspectiva futurológica que citei na resposta anterior, devo ter imaginado que, se se unirem os generosos em suas novas relações de inteiros, ficarão apenas os egoístas como refratários do artifício da generosidade. Creio que os protagonistas da história representam o que temos hoje: a união de egoístas. Deve haver entre eles amor feliz, em detrimento do restante da humanidade. 

 

 

(Eduarda - Literamei): Se você pudesse escolher somente um personagem do livro, qual seria e por qual razão?

 

Gosto da cadela Falácia. Amo os cães, os animais em geral. 

 

(Eduarda - Literamei): Quais são os seus planos para o futuro?

 

Agora que já penso ter escrito tudo o que pudesse e que viesse, devo tratar de cuidar de toda essa obra. Devo divulgá-la, alimentá-la como se fossem filhos. Traduzir, como algumas que já o foram para o inglês e para o espanhol. Pretendo traduzir para outros idiomas ainda e conservá-las belas e brilhantes. E claro, viver a vida com a maior naturalidade possível, tentar fugir ao desespero apocalíptico e lutar para estar cada vez mais integrado ao mundo como ele é ou como me parece.

 

 

(Eduarda - Literamei): Por fim, escreva uma mensagem aos que pretendem ler o seu livro.

 

É o que eu digo na própria nota do autor: não espere nada de fantástico, não espere nada de metafísico: se procura uma obra com o nome da gente e com o nome da terra, estará lendo a obra certa.

 

O livro, Caminhos Abertos, pode ser adquirido no Clube de Autores:

https://clubedeautores.com.br/book/256615--Caminhos_Abertos#.Wx0nS4pKjcs

 

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