A LONGA VIDA CURTA

June 27, 2018

Hipócrates dizia que a vida era curta e que a arte era eterna. Daí minha indagação: se a vida é curta, é curta aos olhos e ao coração de quem? E se a arte é eterna, também questiono: é eterna aos olhos e ao coração de quem?

O calendário mais antigo de que tenho registro é o judaico, seus anos são de 5778. É possível imaginar quantos momentos admiráveis ou abomináveis foram vividos aos olhos e aos corações ao longo de todos esses anos? Não. Impossível calcular isto. Nem estimar nem fazer sequer estatísticas.

Talvez o pai da medicina falasse como se fosse um deus que visse a realidade alheia aos micromomentos. O que também pode não passar de uma falácia. Porque a vida só é vista pelos nascidos. Assim com a arte.

Se deus não morreu – do mesmo modo também não nasceu. E se não é uma entidade nascida, muito menos morta, não há nenhuma perspectiva que se possa olhar como se fosse com seus olhos.

Como dizer, pois, que a vida é curta? Como dizer que a arte é eterna? Curta aos olhos de quem é a vida? E eterna a arte, também, para apreciação de que olhos, uma vez que não é certo que haja olhos eternos ou, ao menos, mais eternos do quer que seja?

É de desconfiar que uma afirmação dessa categoria viria de alguém que não valoriza ao certo os momentos, ou os micromomentos de uma vida. Parece estar mais voltado ao macromomento universal, como se isto fosse lá condição que se pudesse louvar.

Como se deus estivesse em seu trono e Hipócrates, ou, alguns médicos, logo abaixo dele, nos observassem a todos cá embaixo, mortais e terrestres, vivendo apenas mazelas e infortúnios. Não. A medicina tem seu valor limitado talvez justamente por essa visão de que a vida é curta – no encalço de seu precursor.

A vida para mim é longa, excessiva, entediante, chata, enfadonha, repetitiva – e o que é interessante nela é a busca pela novidade. Tão difícil de encontrar.

São esses os médicos que querem um pedaço do céu, e buscam viver de amor sem que se tenha descoberto ainda que sentimento é esse. A dor é necessária para indicar o que perece.

A dor constante é tão impossível quanto a vida eterna. Precisa ser tratada, sim, ou curada, para quem não conhece os sinônimos, nem que seja com a própria morte, que, no final, é verdade, sempre vencerá a velha batalha da vida. E é bom que seja assim, porque a vida é longa, longa – longa mesmo.

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