Compativelmente Incompatível

 

 

(Pedra de Toque): Montesquieu afirma em sua filosofia que “um autor é um tolo, que, não satisfeito em aborrecer a sua geração, insiste em aborrecer as gerações futuras.”. O que você pode dizer sobre esta afirmação?

(Maurício R B Campos): Espero não estar aborrecendo ninguém, na verdade me esforço para que ocorra o contrário! O que penso é que essa afirmação de Montesquieu não se aplica aos escritores contemporâneos. Essa é uma afirmação para as elites aristocráticas de sua época. Nós vivemos, enquanto escritores, a Era da liberdade. Qualquer pessoa pode escrever um livro utilizando o Word e publicá-lo na Amazon ou no Clube de Autores, por exemplo. E não posso dizer por estas pessoas, mas quando escrevo não penso que minhas palavras serão imortalizadas, embora seja um pensamento romântico, sei que escrevo histórias populares. Não me considero um erudito e minha leitura traz todos os vícios de uma literatura comercial.

 

(Pedra de Toque): Que acha disso? Ler e escrever: Um mal necessário?

(Maurício R B Campos): A forma como nos envolvemos com as personagens na elaboração de um romance é uma experiência que por si só vale todo o processo de escrita. É criar algo de si, mais como parir um clone do que um filho, ainda sim uma boa forma de autoanálise.

 

(Pedra de Toque): Você tem trabalhado personagens totalmente fictícias ou com predomínio na realidade? Como é para o autor lidar com essa dualidade entre o real e o fictício das personagens?

(Maurício R B Campos): Na HQ O Rei Amarelo em Quadrinhos a personagem principal é Edgar Allan Poe, e pelo que me recordo, foi a única personagem real que utilizei até hoje. Utilizar um personagem real exige muito trabalho de pesquisa, prefiro me ater às criações literárias.

E se tudo é ficcional, nada é falso. Os personagens são sempre frutos de experiências ou observação, em sua maioria. Nessa vertente mais realista minhas personagens são sempre baseadas em algo que experimentei, nem que seja pela pena de outros, por sensações trazidas pela música, etc. Mais do que criar, escrever é reciclar, readaptar, transformar elementos de outrem pelo nosso filtro.

 

(Pedra de Toque): Você publicou poesia? Quando? Qual o título do livro, se chegou a publicar?

(Maurício R B Campos): Comecei publicando poesia em fanzines, acho que é um caminho natural, mas não me considero poeta. O ponto alto de minha vertente poética foi a menção honrosa no III Prêmio Literário Cidade Poesia, promovido pela Associação de Escritores de Bragança Paulista em conjunto com a Secretaria de Cultura do Município. O Prêmio gerou um livro de mesmo nome.

Deixo aqui o link de uma das minhas primeiras publicações, um singelo haicai publicado no fanzine Seleções em Folha.

 

(Pedra de Toque): Você acredita na obra em suas possibilidades póstumas? Acha que, como o Léo de Carvalho diz, os contemporâneos não nos leem com muito interesse; talvez porque estejamos presentes e precisemos “morrer” para que o nosso trabalho comece a florescer ou ser valorizado de fato, quando muito? 

(Maurício R B Campos): Essa pergunta é mais profunda do que parece, e cabe algum esclarecimento. Existem dois tipos de autores: aqueles que buscam alcançar um senso de perfeição estética e aqueles que buscam alcançar leitores. Para os primeiros sempre há essa esperança de que o ostracismo de seu tempo na Terra seja recompensado com uma glória futura; para os segundos, no grupo ao qual me considero incluído, só há o tempo presente, pois o futuro pertencerá às novas gerações.

As histórias que ouvimos de autores legados ao ostracismo quando vivos e que agora são reconhecidos, não creio que seja um padrão que irá se repetir no futuro. Não com a massiva quantidade de autores que o mundo contemporâneo propicia. O poeta disse que o futuro repete o passado, eu discordo. Essa tese me lembra o efeito Image, e peço perdão por usar uma analogia tão distante das academias literárias, mas é a que melhor se encaixa na questão. No mercado norte-americano de histórias em quadrinhos são famosos os leilões de primeiras edições por preços astronômicos, o primeiro número de uma revista de Batman valendo milhares e milhares de dólares. E existiam duas principais forças editoriais nos EUA: a Marvel e a DC. A Marvel sempre foi famosa por explorar seus profissionais, e nos anos 90 houve um motim. Os principais artistas da Marvel, que rendiam milhões à companhia e ficavam com migalhas, abandonaram a editora e fundaram sua própria casa, a Image. Surgiram novos heróis, alguns originais e outros cópias descaradas dos personagens Marvel, e as comic shop sofreram uma enxurrada de novos títulos e novos números 1. Foi um arraso de vendas. Não me lembro se a Image chegou a desbancar as vendas da Marvel em algum mês, mas chegou perto. E então o tempo foi passando, passando, e aqueles milhares e milhares de colecionadores que haviam comprado o número 1 de Spawn, por exemplo, descobriram que ele nunca valeria um milhão de dólares. Aliás nunca valeria mais do que o preço de capa. Todos tinham aquilo em casa esperando a valorização que nunca viria. E foi nesse momento que as vendas da Image caíram drasticamente e gradualmente os profissionais que fundaram a editora retornaram para as grandes casas que dominavam o mercado e venderam suas participações na Image, com medo de ter que arcar com um processo de falência.

A Image não faliu, e graças a alguns fenômenos editoriais permanece lutando pelo terceiro ou quarto lugar no mercado de comics norte-americano, um mercado que está em franca decadência. Mas isso ilustra o que queria demonstrar. Para mim a figura do gênio incompreendido está no passado. Na era da informação ou somos grandes em nosso tempo ou iremos desaparecer enquanto escritores. E a grande maioria desaparecerá.

Há uma barreira para quem não tem influência ou dinheiro de se tornar minimamente conhecido no Brasil? Há, tudo sempre foi e sempre será mais fácil para as elites. Mas esse fato não mudará no Brasil nos próximos quinhentos anos.

 (Pedra de Toque): Qual o livro favorito de sua autoria? Existe? Ou é sempre aquele em que está trabalhando, quando não o último produzido, ou o melhor é o que está por vir? Fale um pouco dessa obra, seja ela real ou ainda projetada para o futuro.

(Maurício R B Campos): Como na letra imortalizada por Frank Sinatra the best is yet to come, sempre. O melhor é sempre o que está por vir. Venho melhorando minha escrita, que para mim é um exercício constante de novas descobertas e abandono de alguma coisa. Gostaria de citar algumas obras que me servem de inspiração e que tenho o sonho de igualar, mas não tenho tamanha ousadia. Mas posso dizer que o meu grande projeto é criar uma obra policial que seja memorável, que ultrapasse o gênero. Ainda tenho alguns projetos em que estou filiado na literatura fantástica, mas pretendo navegar por outras águas.

Acabei recentemente de escrever o meu primeiro romance, uma obra new adult [gênero: novo adulto] que busca retratar uma parcela de nosso tempo, as angústias que assolam essa geração que chegou em um mundo onde há novidades a cada quinze minutos. O tema do livro é a Magia do Caos e como dois jovens tem suas vidas transformadas graças a essa curiosa e fascinante filosofia.

 

(Pedra de Toque): Nesse novo gênero, os supostos “novos adultos”, que certamente o lerão, estão interessados em superar o caos ou apenas fazer o mesmo estardalhaço que nós, das gerações um pouco mais antigas [risos], vimos fazendo, quer dizer, mais aumentando ou duplicando o caos do que superando-o propriamente?

(Maurício R B Campos): O Caos dentro da Magia do Caos é uma forma encontrada para representar a força que comanda e dirige todas as ações do Universo. O Caos, nesse sentido é uma forma pela qual um ateu poderia acreditar no mais próximo que se poderia descrever como uma divindade, baseado em cálculos matemáticos e física quântica (nada a ver com esse espiritualismo quântico que grassa as mentes aeradas dos brasileiros). Esse deus Caos seria tão indiferente a nós quanto as divindades do panteão de mitos criados por H.P. Lovecraft (Cthulhu Mythos). A Magia do Caos pretende ser uma forma de tirar proveito dessa indiferença do Universo. É uma visão revolucionária de encarar o mundo, e tão difícil de ser posta à prova quanto qualquer religião.

“A humanidade só será feliz quando o último padre for enforcado com as tripas do último rei”. A frase é atribuída a Diderot, mas tem origem diferente. “Eu gostaria, e este será o último e o mais ardente dos meus desejos, eu gostaria que o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre”. Esta frase foi escrita pelo padre francês Jean Meslier, no seu livro “Memória dos pensamentos e sentimentos do abade Jean Meslier”. O feiticeiro-cientista Peter J. Carroll, criador da Magia do Caos, alterou o sentido da frase e cunhou outra que se tornou um lema para seus seguidores: “A magia não se libertará do ocultismo até que tenhamos enforcado o último astrólogo com as entranhas do último mestre espiritual”. A sua visão para essa filosofia que iniciou era mantê-la mais próxima da ciência, principalmente das teorias da física quântica, do que de qualquer corrente esotérica.

Mas se está a se referir ao caos no sentido da confusão normal dos jovens, só posso repetir a heresia que meu pai citava, desconhecendo o autor: A juventude é uma doença que se cura com o tempo. Tristemente os jovens chegam à conclusão de Elis, a de que “apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos, como os nossos pais”. Gostaria que uma geração quebrasse essa porcaria de círculo vicioso do sistema e mudasse o mundo de uma vez. Os Millenials pareciam que teriam essa chance com a internet e os meios alternativos que pareciam ser capaz de promover, mas sempre haverá Zuckerbergs e oligarquias para destruir o sonho das gerações. O Facebook matou a internet, destruiu a inerente forma de apresentar novas visões de mundo eminentemente democráticas provocada pela rede mundial de computadores, ajoelhando todos sob a força de um capital que escraviza a todos em uma única rede social, que a tudo controla e mercantiliza.

Não vejo esperança, vivemos o início de uma nova Era das Trevas, estamos vivendo o início do inferno cyberpunk, muito pior do que Orwell, Dick ou Fahrenheit 451. Em Fahrenheit 451 os livros são queimados, o futuro que vemos nascer não precisa mais queimar livros, ninguém os quer ler.

(Pedra de Toque): Cite dois autores que mais lhe inspiram na sua criação e na sua produção? Fale um pouco deles e da relação mimética da obra deles com a sua.

(Maurício R B Campos): Ernest Hemingway e Roberto Bolaño.

Ernest Hemingway sempre foi meu modelo de escrita, dizem que seu estilo foi aprendido da Bíblia, há um distanciamento e uma aridez proposital em sua prosa que casa perfeitamente com a moderna literatura. Mas há um pouco de Machado de Assis, o grande gênio da literatura universal, em cada brasileiro. E o estilo de Machado não era a distância, seu narrador era um palpiteiro sagaz. A cada frase que escrevo tento isolar o estilo Machadiano e buscar a aridez do norte-americano.

Bolaño é a prosa poética latina em seu grau máximo de perfeição. Ler um parágrafo do autor chileno equivale a admirar uma pintura em uma galeria de arte. Era poeta que foi para a prosa para pagar as contas, não há meio melhor de se produzir prosa de qualidade.

 

(Pedra de Toque): A obscuridade em MM38 ou O dia no qual esperamos peixes voadores franceses e Origami, ambos de Mosaicos Urbanos (Origami, só depois, como sabemos), entre outros, é proposital ou não passa pela sua intenção deixar o leitor curiosíssimo sobre o que trata, e, de repente, ele vai pesquisar ou refletir para entender direito aquelas imagens sugeridas?

 

(Maurício R B Campos): No caso de Origami a obscuridade foi friamente calculada, foi um exercício de narrativa fragmentada, já no caso de MM38 ou O dia no qual esperamos peixes voadores franceses a obscuridade foi fruto do processo natural da prosa poética. Imagino a prosa poética como o único meio capaz de tirar uma foto, um instantâneo, digamos assim, do interior.

 

(Pedra de Toque): Tente resumir cada um de seus livros em ordem cronológica. De que trata cada um?

 

(Maurício R B Campos): Mosaicos Urbanos é uma coleção de contos que iniciam a jornada do escritor por um caminho de exploração do papel do ser humano no mundo, a insatisfação e a inadequação das pessoas nos cenários pelos quais levam suas vidas.

Incompatível segue mais profundamente nesses questionamentos, com foco no ego. O que é essa voz que soa em nossa mente e que acreditamos ser nossa alma ou consciência? Existe uma personalidade exclusiva? O que somos? Produtos da bioquímica cerebral, meros impulsos elétricos? Como acessar nossa essência? Em Incompatível temos dois jovens que tentam responder essas questões, um de maneira mais moderada e um de forma radical abraçando a quebra do Ego. A quebra do Ego é uma prática mágica que pretende acessar o Ego através da destruição do complexo de identidade que nos foi imposto pela sociedade.

 

(Pedra de Toque): Sua literatura parece demonstrar o aspecto da literatura paulistana (ou paulista) contemporânea. Como foi sua infância? Nasceu em São Paulo? Como é a rotina em São Carlos, hoje? Como foi se adaptar ao interior do estado, caso não tenha nascido lá?

(Maurício R B Campos): Eu nasci em São Paulo e essa cidade é a minha paixão, e para mim se tornou em uma espécie de terra prometida, pois sou um paulistano exilado no interior. Vivo aqui para ganhar o pão, mas cada vez me parece mais difícil que retorne à capital. Parece que está ficando sempre para o ano que vem.

E já que estou aqui em São Carlos, decidi aproveitar o que a cidade tem de bom, o que não é pouco. Incompatível se passa aqui, embora se passe também em São Paulo, Madri, Vigo e Santiago (ou não seria uma obra minha); mas boa parte da trama se desenvolve em uma ecovila baseada aqui na cidade. Realmente há uma maravilhosa ecovila aqui, chamada Tibá, mas não é a do meu livro, a do meu livro é inteiramente ficcional, chama-se ecovila Tibiriçá. Qualquer semelhança é mera coincidência.

 

(Pedra de Toque): Já está previsto o lançamento de Incompatível?

(Maurício R B Campos): Sim, já está na Programação Oficial da Bienal do Livro de São Paulo 2018, será dia 04 de agosto, das 17:00 às 19:00hs.

 

(Pedra de Toque): Quais são suas fontes de pesquisa criativa e produtiva? Onde vai buscar mais ideias para sua obra? Vêm da palavra ou do mundo? Que é que predomina?

(Maurício R B Campos): Busco encontrar no mundo o que foge do prosaico, o diverso e o diferente. E retratar esse mundo. Acho que o nosso papel é esse, afinal o papel dos historiadores é cuidar dos grandes acontecimentos e o dos escritores retratar o que acontece na cozinha, e mais ainda, na cabeça de quem está na cozinha. Todas essas coisas que não entrarão para a história, embora sejam fundamentais para definir como pensam as pessoas de nosso tempo.

Em Incompatível, por exemplo, me chamou a atenção esse conceito da geração millennials de Magia do Caos. Magia do Caos não é a magia de Crowley, embora provenha dessa, mas é mais um tipo simplificado ao máximo dessas práticas mágicas, cheia de pragmatismo. E os grupos dessa prática são numerosos e vem crescendo. E seus conceitos são tão maravilhosamente libertários à primeira vista que não pude deixar de criar uma história sobre o tema, explorando o que há de mais curioso em seus ensinamentos.

 

(Pedra de Toque): Em que código ou doutrina se baseia a Magia do Caos? Há algum livro ou tábua de valores escritos para orientar os grupos de seguidores da prática?

(Maurício R B Campos): O livro Liber Null e O Psiconauta é um grimório que reúne teoria e prática da Magia do Caos. Outro livro interessante é Os Segredos dos Iluminados de Thanateros, disponível no site da IOT Sulamericana.

 

(Pedra de Toque): Cite alguém que você considera um grande autor e que se perdeu em míseras “curtidas”; um que você considera abaixo de medíocre, e foi laureado; um que mereceu o “laureamento” e um que mereceu ser esquecido.

(Maurício R B Campos): Acredito que quando alguém se pretende autor, algumas coisas mudam em sua vida, há uma metamorfose quase kafkiana nessas pessoas. Um autor é uma criatura que observa o mundo de forma diferente, seus olhos se tornam olhos de voyeur, sua audição se torna aguçada e ele se pega espionando a conversa alheia nos trens e restaurantes e bares. Mas a maior metamorfose a que os autores se submetem se dá na pele. Duas características são marcantes, sua pele se torna lisa e escorregadia, de forma que se torna difícil os pegar e outra característica é que essa pele lisa se torna fina. E não serei eu que irei cutucar essas peles finas em tempos de redes sociais. Estou com o rabi: não julgueis...

 

(Pedra de Toque): Mas não crê que somos os juízes do nosso tempo, nós, os verdadeiros formadores de opinião nas ruas, nos bares, nos lares, na redes sociais, e de certa maneira precisamos julgar cada vez mais e não menos, principalmente para sermos julgados, pois não tememos julgamentos nenhuns?

 

(Maurício R B Campos): […]

 

(Pedra de Toque): Mauricio, o que é a vida?

(Maurício R B Campos): A vida é essa força estranha que busco decifrar desde que nasci, e talvez, nunca saiba o que é. E nada é mais fascinante do que o desconhecido, acho que a graça da coisa toda reside aí.

 

(Pedra de Toque): Ok, receba o nosso abraço, que é a única coisa falsa na Pedra de Toque!

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