A PERSPECTIVA POLÍTICA, FILOSÓFICA E LITERÁRIA DE FERNANDO GRAÇA

August 1, 2018

 

(Pedra de Toque): qual é a fonte, a matéria-prima da sua obra? Alguns escritores se fixam à experiência vivida por outros, outros se fixam aos ídolos na arte, outros ainda à observação de si mesmos, etc. E você, como se considera entre esses autores? Qual dessas fontes predomina como impulso de criação do seu trabalho?

(Fernando Graça): Tudo me atravessa, meto o nariz (e outras coisas) em tudo, tudo me suspende, me provoca, me move, me comove, me transforma, transformo tudo. Sou instantâneo: basta sacudir e misturar. É o ensinamento do tio Rilke: se a realidade te parecer apática, culpe a si mesmo pela falta de inspiração. 

 

(Pedra de Toque): Que livros pretende publicar antes das eleições, fale um pouco deles? Fique tranquilo – ninguém fará igual!

(Fernando Graça): Planejo um livro em especial justamente para antes das eleições. Tenho muitos livros sendo concebidos: filosóficos, poéticos e de prosa ficcional, sem contar a dramaturgia. Mas este livro em especial chama-se Terra e Flutuação: Brasília. Muito apropriado, hein? Ficção. Fruto das minhas preocupações e despreocupações, pessoais e coletivas. É um livro bifurcado, borgeano na estrutura geral, com ângulos múltiplos a respeito disso que chamamos de poder e política. Numa parte, defende uma coisa. Noutra, outra coisa. Deslizante, pós-moderno, ou seja, quântico, contra as certezas e verdades. E não digo mais nada, não posso dizer...

 

(Pedra de Toque): Como você se organiza no interior desses universos de vídeos e Letras? Em qual dos dois pensa ter falado mais? Por quê?

 

(Fernando Graça): Sou um dogue alemão com alma de dálmata, mas minha prolixidade e entusiasmo se restringem às coisas do espírito. Calo-me diante do efêmero. Tenho uma qualidade voltada para o falar, para a expressão, e para a escrita. É uma necessidade desde pequeno, de ser o líder, o professor, o mestre, o principal, o diretor. Astrólogos diriam que se deve ao fato de ser leonino... Amo vídeo e texto e vídeotexto. Cabeça verbivocovisual. O fato é que falar e escrever são dois atos difíceis. A maior parte das pessoas acham que falam e acham que escrevem, mas falar e escrever são atos raros. Pouca gente fala de verdade, na maior parte são só ruídos ou projeções, e poucos escrevem de verdade, pois escrever de verdade é saber ser e saber não ser conservador da sintaxe. Além disso, são dois atos muito, muito sérios, porque demandam a contrapartida e a disciplina de ler e ouvir. 

 

(Pedra de Toque): Cite dois autores que mais lhe inspiram na sua criação e na sua produção. Fale um pouco deles e da relação da obra deles com a sua.

(Fernando Graça): Injustiça com a minha biblioteca tão grande! Vou falar os que vierem na minha cabeça... Continuo me surpreendendo em todos os níveis possíveis, estéticos, técnicos e humanos com João Cabral de Melo Neto. Depois, há uma porção seletiva, mas grandiosa em quantidade de autores. Borges, que desde a adolescência me deixou em estado alucinado. Fernando Pessoa. Hilda. Na filosofia, são outros.

 

(Pedra de Toque): Fale um pouco do seu contato com a poesia concreta. Já produziu algum poema concreto ou apenas os visuais que vemos entre seus diversos poemas?

(Fernando Graça): A Poesia Concreta, em termos de produção, já ficou pra trás lá nos anos 60 e 50, até mesmo na produção do último dos moicanos dela, o Augusto de Campos, porque o que ele tem feito nas últimas décadas é poesia intermidiática, virtual e visual, das mais fascinantes e inspiradoras. Ele é o poeta mais jovem que existe hoje no Brasil, quiçá no mundo, com seus 80 e poucos anos... Salve! Meu primeiro contato deve ter sido nos livros do ensino médio, que eu roubava da escola, e depois me aprofundei por conta própria, toda a poesia inovadora do Décio e os estudos e alguns poemas do Haroldo. Mais depois, a Poesia Russa Moderna, dos irmãos Campos com o Boris Schnaiderman, xodó meu, de importância inestimável para o Brasil e o português. Mallarmé. O que ficou da Poesia Concreta é a concreção e a materialidade da linguagem. Acho que ambas as coisas se encontram em tudo o que eu escrevo. A questão do design e da escultura da palavra e do texto. Depois, com ou sem verso, o poema tem que ter ritmo. Mas sou vasto, plural, múltiplo, gosto do choque entre signos, novo e antigo, para daí surgir outra conquista artística. E o que vem aí? O presente-futuro da poesia, provavelmente de todas as outras artes também, é a poesia quântica, a arte quântica. Não só em termos intelectuais, porque o cubismo já o fez, mas tecnológicos mesmo, no nível da tecnologia e da engenharia quânticas.

 

(Pedra de Toque): Como é seu cotidiano? Nasceu em Santos? Onde estão seus pais? E seus filhos?

(Fernando Graça): Clinomaníaco, emergido em arte, filosofia e poesia. Nasci da traição da traição da traição. Tripla traição. Já estavam separados quando nasci, mas morávamos na mesma rua, em Santos, e tinham recidivas. Longa história... Eu: vida simples por fora, sofisticada por dentro. O resto é segredo. Não, minha vida é um livro aberto. Meu pai morreu em 2011, minha mãe é presença constante. Meu pai também, em fantasma e em perfume e em memória, e em espelho, pois sou ele todinho, trejeitos, expressões e tipo físico. Obviamente ele me inspira, me começou a dar livros quando minha mãe falou que eu era escritor, e só começou a se preocupar com meu futuro no fim da vida, quando já era tarde. Quanto a mim, caçula, torto... Sou urbano, amodeio São Paulo, a vida cultural, a multiplicidade citadina, para onde sempre vou convergir, e o mar e a orla de Santos, onde nasci. Transito entre ambas, com algumas passagens anuais pelo Rio. Tenho um comportamento muito caiçara, do estigma do vagabundo mesmo, malemolente, preguiçoso, boêmio, enfim, tudo o que é essencial em ócio e arte, mas antiprovinciano. No fundo, esses clichês formam uma pessoa de bom coração... Qual foi a outra pergunta? Ah! Como Hamlet e Machado de Assis, não quero filhos. Não agora. Não agora, com quase a metade de 50 anos, com uma vida pela frente e ainda aprendendo a cuidar de mim. Quem sabe depois... As crianças de hoje parecem reencarnadas do umbral! Já tenho minha gatinha.

 

(Pedra de Toque): As consequências do capitalismo são de certa forma evidentes desde a revolução industrial, e são as mesmas que você condena em algumas de suas comunicações. E as consequências do socialismo? Quais você imaginaria serem caso os países socialistas fossem maioria hoje?

(Fernando Graça): O fato é que o capitalismo está aí, renovado ou tardio ou em um longo fim e estertor, mas está aí, com benefícios e malefícios, e mais malefícios do que benefícios, e as esquerdas não têm hoje, agora um consenso entre si tampouco um sistema mais eficiente que possa substituí-lo, portanto o que tem aperfeiçoado o capitalismo desde a revolução industrial é o socialismo, democrático, diga-se de passagem. Antonio Candido disse isso, numa entrevista: o socialismo é triunfante. Em todas suas conquistas políticas progressistas e na pulverização do mercado. O Manifesto Comunista também teve uma primeira importância: mudou a relação do trabalhador com o patrão. Mas, hoje, século 21, estas duas figuras, patrão e empregado, sofreram metamorfoses e precisam ser superadas. A própria noção de espaço e trabalho mudou - as pessoas se sentem aparentemente mais independentes, há trabalhos em casa, freelancers, autônomos e toda uma massa infelizmente na informalidade, precisando ser resgatada, sustentando este país em crise, abaixo de um governo antidemocrático, corrupto, centralizador, incompetente. Mas, enfim, é um assunto muito amplo para ser discutido aqui, mas essa nova configuração de trabalho faz lembrar a sociedade de controle prevista por Burroughs, Foucault e Deleuze, e que se intensificará nos próximos vinte anos, substituindo a sociedade disciplinar... O que tenho defendido? Não é o marxismo ortodoxo; prefiro aspectos do Gramsci com sua revolução cultural, sem armas: bombas semióticas contra a mercantilização da vida, contra o consumismo, contra o dinheiro pelo dinheiro, contra o Cronos capitalista, contra as centralizações de poder e riqueza! O comunismo ortodoxo, radical, perdeu o bonde da História, demoniza tudo o que é novo, muitas vezes até mesmo na arte, e diz equivocadamente que é frescura burguesa. Sou contra qualquer ditadura. Sou entusiasta da Renda Básica Universal, de um salário incondicional para todo homem pagar moradia, alimentação e outros serviços básicos, imprescindíveis para a dignidade humana, e sobretudo para viver da sua vocação, mesmo que ainda queira ter um emprego. Tenho escrito diversos artigos sobre isso. Trata-se de um dos projetos, propostas, ideias eficientes advindas do socialismo contemporâneo, aqui através do Suplicy e no resto do mundo, inclusive engatinhando e dando certo na prática em certos países... Também tenho devires revolucionários, sou poeta, mas, ao invés de falar vagamente em democracia num mundo onde as grandes decisões não são tomadas por nós, é preciso entender a República Civil, sua estrutura, aprofundar seus processos de voto, eleição, descentralização, consulta direta e popular, referendo... Nosso país ainda não tem uma tradição republicana civil, por isso o papel da educação conta muito na criação de novas propostas transformadoras para um século tão esgotado. Por fim, resolver essa pergunta crucial no mundo de hoje: como aprofundar a democracia e a República Civil para que elas não se resumam a liberdade de expressão, protestos e eleições em candidatos e partidos lançados de cima para baixo?

(Pedra de Toque): A qual situação de espírito você prevê que este mencionado aprofundamento da democracia (e a República Civil) nos conduza, para além da liberdade de expressão, protestos e eleições, etc.? Não imagina algo como a guerra de todos contra todos? A tirania já não estava prevista por Aristóteles como proveniente desse sistema político?

 

(Fernando Graça): Na verdade, Aristóteles viu bem que é a aristocracia que leva à oligarquia e que a república se inclina para a democracia. O mundo mudou muito desde Platão e Aristóteles, e com o mundo mudou também a democracia e a República, para uma mentalidade mais ampla e libertária. Por exemplo, com a revolução americana e, depois, sobretudo com a francesa, vieram os direitos universais do homem que, quando escapam das abstrações e são contemplados por uma jurisprudência eficiente e correta, produzem bons resultados sociais. Não sei qual seria o futuro, mas há um desejo coletivo em comum de renovação da democracia e de resolver de uma vez por todas as urgências nacionais. Em termos de candidaturas, temos nos dividido entre o neofascismo e o neoliberalismo, mas é com os socialistas que estão as transformações. Repito que precisamos de ideias inovadoras e propostas criativas de aprofundamento dessa estrutura democrática e republicana, com mais canais de participação direta e de decisão que ampliem e complementem votos e referendos e protestos. Até agora, nossos esforços se limitam a esses recursos, que muitas vezes são ignorados por oligarcas, plutocratas e figuras antidemocráticas.

 

 

(Pedra de Toque): Na sua campanha para a fruição do desejo, em suas aulas do Corpo Sem Órgão, sentimos haver algo que, talvez, você silencie: a etimologia da expressão. “Desejo” provém do latim DE SIDERE, que significa “dos astros” ao pé da letra; e “esperar pelo que as estrelas trarão”, mais propriamente. Apesar de Nietzsche apregoar o desejo (ou a sensualidade) como uma causa e/ou um efeito de potência, ele condena a esperança, assinalando que ela aumenta o suplício. Poderemos daí inferir que o “desejo” seria “uma ‘má’ estrela”, já que desiderare também significa “desastrar-se”? Como você nos ajudaria a resolver esta questão importantíssima para o seu trabalho no CSO em língua portuguesa?

(Fernando Graça): Não se deseja as estrelas ou o que elas possam trazer. Isso é uma pegadinha semiótica! Projeção psíquica! Deslocamento! Deseja-se as estrelas em si, e o que elas possam – não trazer, mas acender em nós. Quando escrevo ou falo em desejo e corpo sem órgãos, entro num outro terreno diferente do anterior, diferente da resposta que dei à pergunta anterior, num terreno que não é institucional, entro no terreno da grande política de Nietzsche, isto é, no modo de vida, na linha do acontecimento, no devir, na potência. Entro no terreno filosófico, que paira acima dos contextos e os devora ou os põe em xeque total. E, já que você citou a terminologia, quando digo desejo, é o mesmo que vontade, energia, potência e sinônimos afins. Não há qualquer separação. Toda separação não passa de platonismo e transcendência. Desejar é um ato extremamente pulsante e positivo, mais concreto do que abstrato. É que nós, ocidentais viciados, padronizados, logo vemos como falta e nos ressentimos. Há um platonismo renitente no Ocidente, que a partir do século 19 a filosofia começa a contestar. Deleuze, junto com Guattari, foi provavelmente, até agora pelo menos, o último grande filósofo a criar um novo conceito de desejo e de desejar, contrapondo-o na segunda metade do século 20 à tradição filosófica do desejo e até mesmo à ótica psicanalítica limitada do desejo como falta. Não é um desejo de esperança como você colocou, trazendo a raiz antiga da palavra, ao contrário, ao resgatar Espinosa e Nietzsche, ele reivindica o aspecto imanente do desejo. E, desejo solto, imanente, resistindo e fugindo de platonismos e hedonismos, isto é, de capturas, idealizações, formas extrínsecas, regimes de poder, recompensas, prazeres que o matem, desejo intenso, intensivo, em fluxo, nada mais é do que corpo sem órgãos... 

 

(Pedra de Toque): A anarquia não relegaria a sociedade à vulnerabilidade da nossa barbárie, no longo prazo, uma vez que a função primordial do Estado é proteger uns dos outros, uns contra os outros e, até mesmo, de si mesmos e contra si mesmos?

(Fernando Graça): Depende. Pode existir uma ética na anarquia. Onde eu, afirmando e ampliando a minha individualidade, esteja também preconizando automaticamente o comum. Ética como um papel se dobrando, voltando para si mesmo. O quarto livro da Ética de Espinosa trata disso, inclusive, dentre outros assuntos. Como seria um sistema comunitário mundial? Talvez seja este o futuro político, contemplando diferenças e igualdades, tomara que não depois de um grande trauma global onde a paz seja questão urgente, causado justamente pelos Estados militares, neofascistas ou neoliberais... Barbárie? As instituições jurídicas, políticas, religiosas, econômicas e afins são tão perniciosas e nos capturam de tal forma que nos fazem acreditar que sem elas seremos animais, bestas-feras, ou inúteis. Não necessariamente. Bom, os índios têm uma ética muito nobre! E não é incrível o tamanho da honra que eles têm e o quanto a defendem, questão de vida e morte? É emocionante! Não se deixaram escravizar, não se deixam escravizar! Defendem seus territórios e a si mesmos com unhas e dentes! O fato é que eu estou desenvolvendo um conceito filosófico chamado zona demoníaca, justamente sobre essa captura secular, e ainda atual, dos regimes de poder, reivindicando sua soltura. É uma potência ardente, recalcada na maior parte de nós, que pode ser canalizada, não para o crime ou para a destruição de si e dos outros, mas para a criatividade transformadora na arte e mesmo na própria sociedade. Nietzsche tratou disso, era a força do homem primitivo e dos pagãos que tanto o animavam, forças aprisionadas posteriormente pela moralidade cristã, que ele nunca se cansou de desmistificar e destruir. Zona demoníaca como experimentação, e a anarquia é interessante quando abrange a experimentação libertária da vida. O que é ética? Não tem nada a ver com moral, tem a ver com funcionamentos e processos e experimentações. "Não deixarão você experimentar no seu canto", escrevem Deleuze e Guattari, ecoando Artaud. O anarquismo maduro, se é que isso existe, o anarquismo consciente precisa lidar com essa ética. Mas será que existem anarquistas discutindo essas coisas?! (Risos)

 

(Pedra de Toque): Como são feitos os seus vídeos? Você improvisa a comunicação ou tem uma pauta? Como é não ter um olhar que lhe vai formando enquanto fala? Não lhe parece uma piada cruel aprender com as próprias palavras?

(Fernando Graça): Toda minha criação é um pouco neurótica e em estado de graça ou urgência. Urgência de iluminar ou de violentar. Faço e refaço e transfaço e edito e reedito. Todo vídeo e texto, artísticos ou não, são consequências de muito estudo, esquematizados e ordenados na minha cabeça e então improvisados de acordo com esse mapa mental ou com anotações. Princípio em comum, formatos diferentes. Surge a ideia ou a necessidade, e então ela se adequa em algum formato específico. Certas coisas devem ser ditas em vídeo, neste signo imediato que envolve imagem e áudio, geralmente para eu me livrar do fardo das minhas reservas intelectuais e humanas, mostrar minha cara, elucidar, ensinar. Outras coisas demandam o texto, opinião, comentário, artigo ou artístico, com maior profundidade. Ser "youtuber" e enviar vídeos no Facebook de conteúdos destoantes contra a idiotice reinante, tudo isso é resistência, bomba semiótica, de impacto imediato e que repercute. Quando digo necessidade, é necessidade que tenho mesmo, na acepção mais exata da palavra: necessidade de gritar. Meus vídeos nascem mais ou menos da mesma forma que um poema ou uma obra literária, mas obviamente resultam diferentes. O que é mais fácil para mim? Fazer vídeos, basta ligar a câmera e soltar minhas reservas ou ler algo, e poemas, poemas são mais fáceis do que a prosa, que demanda costura de dias, semanas, meses, anos. Poema é pílula. E dramaturgia? Depende do meu pique, posso terminar, sobretudo porque não escrevo peças de muitas páginas, estou na linha de Oswald de Andrade e Heiner Müller, inclusive como diretor. Mas, o Terra e Flutuação: Brasília, que martírio é escrever um romance, mesmo fora dos padrões tradicionais e, depois do hiato, reler, retomar o pique, que martírio, que incômodo, que dor, com o acréscimo da autopressão! Prosa não se resolve com inspiração como a poesia que, mesmo depois do fogo inicial e primordial, pela concisão e caráter minimalista, você corrige, mas está feita. Em algum momento perde-se a inspiração na prosa e é preciso continuar. Como? Com alguma técnica... Talvez o romance já tenha ficado no século 19, tenha morrido no início do século 20, e eu esteja insistindo nele... Preciso terminar este livro, mesmo que depois eu destrua a forma que nele criei.

 

(Pedra de Toque): Você não pensa que falar de coisas supremas pode lhe tornar aquele “discípulo perigoso que faz de tudo um compromisso”? É que as coisas supremas remetem a questões insondáveis e a problemas insolúveis. Seria este o motivo da sublimidade da sua obra? Como a quer, afinal? Sublime ou Bela?

(Fernando Graça): Sou filho do pós-modernismo, procuro misturas, belos horrores, sólidos sublimes... Há um Fernando – o filósofo? o cotidiano? – que para diante do insondável e do insolúvel. Há também um outro Fernando, provavelmente o poeta, que não busca outra coisa senão o insondável e o insolúvel. E a vida segue... Só tenho medo de enlouquecer e detestaria ser normal demais.

 

(Pedra de Toque): Tom Waits (1949) fala de tragédia cantando suave – justamente o contrário do que a maioria faz há tempos. Na literatura é bem mais difícil fazer essa inversão do que na música... Isto é proposital nos seus vídeos?

(Fernando Graça): Provocação ou elogio? Sempre gostei de interpretações viscerais, mas sem exageros, que sejam contidas. Assim não se ofusca o texto, ele fica em posição de equilíbrio com o performer.

 

(Pedra de Toque): Seu poema “Eu Assino” termina com um verso bem representativo de suas comunicações: “Toda palavra é um recomeço.”. Não crê conosco que há sentimentos intraduzíveis em palavras? E que, portanto, o que vem depois de um silêncio pode ser apenas um disfarce ou um subterfúgio?

(Fernando Graça): [...]

 

(Pedra de Toque): Cite suas obras publicadas e os canais onde podem ser encontradas.

(Fernando Graça): "Disfarce e Subterfúgio!" (Risos) Belo título para livro! Recomendo, por enquanto, os meus 12 últimos poemas publicados na Revista Germina, escritos em 2016, 2017 e nesses primeiros meses de 2018: http://www.germinaliteratura.com.br/2018/naberlinda_fernandograca_mar18.htm. Tenho muitos projetos para o resto do ano em teatro, literatura, cinema. Meu site, com um blog caótico e constantemente atualizado: www.fernandograca.xyz

 

(Pedra de Toque): O que, afinal, você não quer?

(Fernando Graça): Sempre repeti uma frase que Kubrick, cineasta com extrema liberdade criativa fora de Hollywood, disse: "Não sei o que quero, mas sei o que não quero.". Sempre fugi de coisas idiotas, resisto a tudo o que é pérfido ou passageiro. Mas, gozado, curioso, interessante, neste exato momento, diante dessa pergunta, parece que vislumbro bem, quase numa visão, o que é que eu quero (cantando:) “eu não quero pouco, falo de quantidade e intensidade, bomba de hidrogênio, luxo para todos", e liberdade para exercer minha vocação.

 

(Pedra de Toque): Fernando, o que é a vida?

(Fernando Graça): (Solta um longo e prolongado suspiro.) O que não é a vida? O que é? O que é o é? Você sabia que o verbo ser não existe no tupi, nem no hebraico, nem no japonês, que no inglês se mostra ambíguo com o estar e que no russo e no árabe revela-se oculto?

 

(Pedra de Toque): Tá bom! Receba aí a única coisa falsa deste blogue: o nosso abraço! Muito obrigados pela entrevista!

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