AS VIAGENS TRANSMODERNAS DE ROLDAN-ROLDAN

November 1, 2018

 

(Pedra de Toque): Roldan, não lhe parece arriscado cair nas amarras da sexualidade excessiva, como coloca o David Haize, nas Três Viagens..., em nome do prazer, mesmo que, com o envelhecimento e as impotências que ele traz, possamos ficar mais frustrados com o que perdemos do que ficaríamos se nosso apetite fosse (como é em muitos homens e mulheres) refreado?

(Rod Roldan-Roldan) Se é arriscado, literariamente falando, não sei. Só posso afirmar que a sexualidade – como em autores como Henry Miller e D. H. Lawrence, por exemplo – é a marca registrada de Roldan-Roldan, assim como a identidade e o exílio. Por outro lado, David Haize é um hedonista e o será até a morte.

 

(Pedra de Toque): O que é isto de inédito que você preconiza para nós? Rejeita o socialismo e o capitalismo… Seria este ineditismo que você promove uma nova “velha” “terceira via”? Seria utopia, ou o quê, exatamente?

(Rod Roldan-Roldan) Não creio que seja uma utopia, embora o ser humano continue muito atrasado. Sim, talvez uma “nova velha terceira via”. Nem o totalitarismo do stalinismo e do maoísmo, nem a ditadura do capital, ou seja, a subordinação do bem-estar social à regras abusivas e injustas do neoliberalismo, regras que menosprezam a ética, a moral, enfim os valores humanistas.

 

(Pedra de Toque): Se entendemos bem, você postula uma quarta via, portanto? Nem totalitarismo socialista, nem capitalismo ditatorial, nem o neoliberalismo pedante? É isto mesmo que você quer dizer? Que nome você daria para esse caminho novo?

(Rod Roldan-Roldan) Sim. É isso mesmo. Talvez possamos chamar simplesmente de humanismo, termo que está sendo usado.

   

(Pedra de Toque): Como você considera nossa civilização? Somos Ocidentais? Somos Brasileiros? Somos Latino-Americanos? Ou existe algum outro recipiente ideológico em que nossa gente poderia se inserir e se sentir mais confortável em termos de cultura?

(Rod Roldan-Roldan) Somos latino-americanos (se bem que os países andinos são uma coisa, os do cone sul são outra coisa e os do Atlântico – Brasil, Venezuela, Guianas e Caribe – uma outra), uma subdivisão dos ocidentais. Um brasileiro difere bastante culturalmente de um europeu. Em outras palavras, a cultura e civilização do brasileiro é diferente daquela da Europa e da dos EUA.

 

(Pedra de Toque): Qual o filme que você não cansa de assistir?

(Rod Roldan-Roldan) Como cinéfilo, são muitos. Se tivesse que escolher só dois, optaria por O Leopardo, de Visconti, e O Ano Passado em Marienbad, de Resnais. Ressaltaria também a obra-prima   revolucionária na forma e no conteúdo e que raramente está entre os melhores de todos os tempos: Dogville, de Lars von Trier; o extraordinário Queimada, de Pontecorvo (um dos maiores filmes políticos realizados até agora) e Ana e os Lobos, de Saura, uma metáfora sem par da ditadura franquista.

 

(Pedra de Toque): Qual o melhor diretor de cinema brasileiro, em sua opinião? Se é que acompanha o cinema brasileiro.

(Rod Roldan-Roldan) Atualmente, Kleber Mendonça Filho. O Som ao Redor e Aquarius trouxeram para as telas o que o Brasil insiste em não ver. Mas, claro, não posso me esquecer de Walter Salles que respeito muito como cineasta e ser humano.

 

(Pedra de Toque): Você recebe muitas influências da sétima arte para escrever ou a vida e as outras artes também lhe trazem coisas interessantes?

(Rod Roldan-Roldan) A sétima arte exerce uma influência preponderante em minha obra. Meus livros são essencialmente cinematográficos. Mas a pintura me fascina. Pintores como Giotto, Bosch, Bruegel (o Jovem e o Velho), Caravaggio, Goya, Van Gogh, Munch, De Chirico e Edward Hopper e as pinturas clássicas chinesas estimulam minha imaginação. Assim como a música. De Bach a Beethoven e Mozart; de Stockhausen a Luciano Berio e Pendericki; de Caballé e Hvorostovky a Léo Ferré e Elomar.  É tão intensa a emoção provocada pela música, que não posso ouvir música quando estou escrevendo, pois ela me desvia da criação, preciso primeiro ouvir determinada música antes de começar a escrever. E, obviamente, a literatura. São inúmeros os escritores que, de um modo ou de outro, me influenciaram.  E, claro, a vida. A vida, boa ou ruim, que lateja, vibra, trepida, ferve, ruge e explode ao meu redor. A vida com sua urgência de ser vivida intensamente antes que ela acabe. Sim, a vida: o Homem e a condição humana. Enfim, sou um apaixonado pela arte e pela vida.       

 

(Pedra de Toque): Acha que os bons leitores estão em extinção? E os bons autores? Como vê o panorama da literatura nos dias de hoje, apesar de estar mais ligado ao cinema?

(Rod Roldan-Roldan) Escreve-se muito lixo comercial hoje em dia. Fico com velhos amigos como Raduan Nassar (“Lavoura Arcaica” é um dos mais belos romances da literatura brasileira), Guimarães Rosa, Murilo Mendes (com quem me identifico muito), Manuel Bandeira (com belos toques “malditos” – pena que não ousou mais, mas os artistas brasileiros, de modo geral, sempre acompanhavam o conservadorismo da sociedade), Hilda Hilst, Osman Lins e a grande Orides Fontela que não é devidamente reconhecida.

 

(Pedra de Toque): Acha que existe algo ou alguém tentando calar a literatura?

(Rod Roldan-Roldan): O bordel (o puteiro que vende a mãe, a filha e a esposa se for necessário) representado pelo neoliberalismo não está nada interessado em promover a literatura e a cultura de modo geral. Mesmo porque para o neoliberalismo, a cultura não dá lucro. Além do mais, o neoliberalismo não está interessado em que as pessoas leiam. Pois ler significa deixar de ser alienado e tomar consciência. Isso não convém ao autoritarismo de um sistema disfarçado de democracia, cujo lema é: consuma e continue ignorante. Não é à toa que o neoliberalismo compactua com determinadas religiões que castram o intelecto de seus fiéis, o que é uma aberração.    

 

(Pedra de Toque): Pela boca de David Haize, você diz que sua santa trindade é “comer, praticar sexo e escrever”. Como você come? Você cozinha? Vai a restaurantes? Ou fica em sua casa curtindo uma alimentação mais íntima? Está conseguindo escrever atualmente? Fale um pouco do seu dia a dia.

(Rod Roldan-Roldan): Sou um gourmet e gosto de cozinhar para os amigos, mas não para mim quando estou sozinho. Às vezes invento pratos como um dos meus personagens de Litterata ou O Doce Sorriso do Macho Satisfeito (sempre a literatura invadindo a realidade e vice-versa). Quanto ao meu dia a dia, digamos que não é nada glamoroso. Vivo modestamente. Não ganho praticamente nada com meus livros. E ultimamente enfrento sérios problemas de visão, o que me impede mais leitura. Meu conto “Uma Semana na Vida de um Escritor” (em verdade um minidiário) do livro “Negro, Pobre e Gay” fala sobre isso.   

 

(Pedra de Toque): Conte para os leitores um pouco da odisseia que foi sua infância, mudando de países, morando no Marrocos e depois a vinda para o Brasil. Qual a relação dos três países na sua história. Nasceu na Espanha?

(Rod Roldan-Roldan): A perseguição da ditadura franquista obrigou meu pai a fugir e se a refugiar no Marrocos. Minha mãe se refugiou no território britânico de Gibraltar. E eu, criança, fui colocado clandestinamente (escondido entre as malas) num navio que me levou à cidade internacional de Tânger, no Marrocos, onde me reuni com meu pai, para mim um desconhecido. Posteriormente minha mãe conseguiu entrar clandestinamente em Tânger. E, sem documentos, refugiados apátridas, ficamos presos nessa cidade durante dez anos, até reavermos documentos. Isso sem contar a pobreza que tivemos de enfrentar. Esse período muito duro de minha infância e adolescência marcou profundamente minha vida, portanto, minha obra. Veio a luta pela independência do Marrocos e aí, como milhares de europeus, tivemos de partir. E viemos ao Brasil. E no Brasil me tornei um escritor brasileiro. Sim, um escritor brasileiro nascido na Espanha, criado num país islâmico, de formação francesa, formação que influenciou fortemente a minha obra. Em suma, sou a própria identidade da “inidentidade”. Nem sempre temos as rédeas de nosso destino nas mãos, mas eu sempre permaneci fiel a minha paixão de escrever a ponto de um dia largar tudo para me dedicar totalmente à escrita.   

 

(Pedra de Toque): De onde surgiu o Joseph Deschamps? Sente falta de um guia?

(Rod Roldan-Roldan): Joseph Deschamps é puramente ficcional, embora composto de várias pessoas que existem. Não, não sinto falta de um guia. Sempre soube, desde criança, o que queria e onde estava o que eu queria. Sinto falta de que alguém saiba quem realmente eu sou. As pessoas conhecem fragmentos de minha personalidade, mas não me conhecem como um todo. Admito que sou complexo, multifacetado. Mas eu me vejo como um bloco único, indivisível, malgrado a vida ter ironicamente tentado me fragmentar. Bem, em verdade, é de se perguntar: quem É Roldan-Roldan/David Haize?    

 

(Pedra de Toque): Os diálogos, muito engraçados, são bastante espontâneos na segunda viagem de David Haize – parecem puro nonsense. Não me lembro de ter visto conversas desse tipo em literatura brasileira, geralmente tão pesada, com algumas exceções. Talvez nas telenovelas do Brasil pode surgir algo assim. Foi daí que surgiu inspiração para esse efeito na forma?

(Rod Roldan-Roldan): Todos os meus romances, novelas, contos e peças de teatro estão permeados de ironia, uma simbiose do absurdo de Kafka e do absurdo de Lewis Carroll, talvez com algo de Dino Buzzati, mas não de Campos de Carvalho. Embora meus personagens sejam trágicos, no sentido grego, eu nunca os mato. Eles já pagam um tributo muito caro por serem deslocados, perplexos, desnorteados num mundo marcado pela finitude. E isso já basta.

  

(Pedra de Toque): Quais são suas impressões da Revolução Francesa? Acha que fez bem para o mundo como um todo?

(Rod Roldan-Roldan): A Revolução Francesa tinha de acontecer num país socialmente imutável onde todas as riquezas e os privilégios estavam nas mãos da nobreza e do clero, enquanto o povo morria literalmente de fome. O que não progride apodrece e morre. Em outras palavras, as águas represadas precisam abrir as comportas de vez em quando, se não os diques se rompem e aí vem a catástrofe. Claro, houve muitos excessos, mas o legado dessa Revolução – como a Declaração dos Direitos do Homem e a laicidade exemplar da França – é valido até hoje. Inútil frisar que um sistema inteligente é aquele que promove reformas progressistas... se esse sistema quiser continuar a existir.  

 

(Pedra de Toque): A terceira viagem (metafísica, como você chama) é a sua favorita?

(Rod Roldan-Roldan): Gosto das três viagens. Cada viagem representa uma face de David Haize, mas a viagem de diligência, é a mais roldaniana. O surrealismo concede uma liberdade total de criação que não cabe nos moldes da verossimilhança do realismo. E o absurdo, ou nonsense, não precisa ser necessariamente trágico.

  

(Pedra de Toque): Resuma seus livros de forma cronológica e diga como poderão ser encontrados.

(Rod Roldan-Roldan): Tenho 35 obras publicadas. Entre os romances posso citar: O Bárbaro Liberto (premiado na Itália), Boa Viagem Sheherazade ou A Balada dos Malditos (premiado na Itália), Litterata ou O Doce Sorriso do Macho Satisfeito e Rapsódia Para um Viajante Solitário. Entre os livros de contos: Ao Sul do Desejo, Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem Para Sexo Casual e Negro, Pobre e Gay. No teatro: As Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio, Jaulas (Subsolo), As Papoulas de Constantinopla e O Ato – Foder É Vermelho. Na poesia: A Dor da Identidade – Khayyam Tânger, Inidentidade (premiado na Itália), Caminho, Insólito Caminho e O Pó da Ausência. Epistolar: Cartas a um Filho em Coma, um testemunho dolorosamente autobiográfico. Meus livros podem ser encontrados na Amazon (e-books ou impressos) ou em sebos.      

 

(Pedra de Toque): Por que você destruiu a obra das suas primícias?

(Rod Roldan-Roldan): Porque sou exigente e temperamental. Considerava meus [primeiros cinco] livros ruins e, como sou radical, os destruí. Não me arrependo. Claro, hoje não faria isso, mas refaria as obras.

 

(Pedra de Toque): Haize, o que mais lhe apraz: a vida ou a verdade?

(Rod Roldan-Roldan): A vida. Embora eu tenha sido educado dentro da mais rigorosa verdade – e tenho muito orgulho desse rigor do meu pai. Mas a verdade pode ser relativa, já que o tempo a altera, mesmo porque nada é imutável. Enquanto a vida é fato irrefutável. E eu acredito só em fatos. E na Razão.

 

[Alguns livros de Rod Roldan-Roldan poderão ser encontrados na Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências e Humanidades (FFLCH) da Universidade de São Paulo].

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