DEPOIS QUE SE CAI NAS MÃOS DO MÉDICO

December 26, 2018

 

Ele não admitirá que você tenha prazeres sensoriais na medida que lhe apetece. Jurou ao estado que está pela vida. E todo juramento, até mesmo o seu, está pela vida. Qual juramento estaria pela morte ou pela degenerescência? Ninguém jura degenerar: disto a natureza se encarrega.

Mas, quando você cai nas mãos do médico, é como se contasse uma mentira grave: precisaria inventar outras vinte mentiras. O médico lhe encaminhará para vinte outros paramédicos. Ou mesmo para outros médicos. E você nunca mais poderá arriscar em ter algum prazer sensorial. Terá muito prazer intelectual. E os médicos acreditam que isto é bastante. Basta recordarmos Hipócrates, a quem seu alimento haveria de ser seu remédio, e vice-versa. E Freud, também, que queria ser desejado intelectualmente!

Aí eu pergunto ao ilustre finado doutor João Guimarães Rosa: e os sarapatéis apimentados? E o uísque com umas pedrinhas de gelo numa sexta-feira de verão? E a feijoada completa no inverno, abastada, suculenta? E a caipirinha? E a cachaça, quando não temos amigos, e é a solidão quem nos serve de companhia, acompanhada de um bom vermute? E as batatas fritas dos meninos e das meninas, com muita maionese e quetichúpi? E as pizzas de todos os sabores imagináveis? E a costelinha simples na panela de pressão? E as cigarradas longas regadas a café adoçado? E os capiqueiques e os sorvetes? A quem servirão?

Nós sabemos que não apenas isto, mas tudo mais que se imagina ingerir é supérfluo e secundário, porque o filósofo asseverava que a fome não indica haver algo que a sacie.

E muita vez estamos com fome... Porém, se formos averiguar bem, não é bem fome o que sentimos. É outro incômodo de que nos evadimos e que nos aparece com o sintoma da fome. Veja se há apetite! Veja se há coragem para ir plantar a batata, regar, colher (ou comprar), descascar, fritar. Não há. Só há a mágica do passar no quetichúpi e comer. Enquanto estamos comendo, sentimos um prazer adicional à saciedade da fome que nos leva a pensar coisas muito interessantes acerca da batata, e que não queremos investigar.

Daí sim surge o apetite com suas acepções todas. Depois de dias, a memória do prazer sentido ali nos leva a tentarmos sentir novamente aquele prazer. Donde comermos às vezes com apetite e sem fome e noutras com fome e sem apetite.

E por que será que nos evadimos àqueles incômodos que ganham o nome de fome no lugar de enfrentarmo-los com o pensamento e a reflexão e a ajuda da memória e toda a parafernália que trazemos dentro?

Talvez a maioria antissocrática esteja pouco se importando consigo mesma, e opta pela via mais óbvia. Cara feia pra mim é fome. Diz o adágio. Creio que se pensarmos melhor… Há caras feias por diversos motivos dos quais estamos fugindo com receio de nos transformarmos em algo que o médico queira que sejamos, mas que nós mesmos não queremos ser.

Logo, não caia nas mãos do médico. Se cair, a solução será pensar Sócrates como um bom companheiro e passar a conhecer-se a si mesmo, dizer adeus aos prazeres sensoriais e viver de saudade, correndo, é claro, o risco de dar de cara com a cicuta fatal.

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