A LONGA VIDA CURTA

February 2, 2019

 

Hipócrates dizia que a vida era curta e que a arte era eterna. Daí minha indagação: se a vida é curta, é curta aos olhos e ao coração de quem? E se a arte é eterna, também questiono: é eterna aos olhos e ao coração de quem?

Para responder estas perguntas seria necessário um contentamento metafísico com a hipótese de um homem que atingisse oitenta milênios de vida. É o caso do homem? Não é hoje nem nunca será. Há outra espécie além dele que pudesse responder? Provavelmente não. O homem superou todas as outras espécies em níveis de inteligência.

O calendário mais antigo cujo registro acompanhamos, por estas bandas latino-americanas, é o judaico, seus anos são de 5778. É possível imaginar quantos momentos admiráveis ou abomináveis foram vividos aos olhos e aos corações ao longo de todos esses anos? Não. Impossível calcular isto. Nem estimar nem fazer sequer estatísticas.

Talvez o pai da medicina falasse como se fosse um deus, que visse a realidade alheia aos micromomentos. O que também pode não passar de uma falácia. Porque a vida só é vista pelos nascidos. Assim como a arte.

Se deus não morreu – do mesmo modo também não nasceu. E se não é uma entidade nascida, muito menos morta, não há nenhuma perspectiva que se possa olhar como se fosse com seus olhos.

Como dizer, pois, que a vida é curta? Como dizer que a arte é eterna? Curta aos olhos de quem é a vida? E eterna a arte, também, para apreciação de que olhos, uma vez que não é certo que haja olhos eternos ou, ao menos, mais eternos do quer que seja?

É de desconfiar que uma afirmação dessa categoria viesse de alguém que não valorizasse ao certo os momentos, ou os micromomentos de uma vida. Parece estar mais voltado ao macromomento universal, como se isto fosse lá condição que se pudesse louvar no lugar da vida segundo a segundo. Ou de alguém que não chegou nem perto de atingir seu ideal.

Como se deus estivesse em seu trono e Hipócrates, ou, alguns médicos, logo abaixo dele, nos observassem a todos cá embaixo, mortais e terrestres, vivendo apenas mazelas e infortúnios. Não. A medicina tem seu valor limitado talvez justamente por essa visão de que a vida é curta – no encalço de seu precursor.

Quanto a nós e a filosofia, e até mesmo ao filósofo, a quem haveria ainda muitas auroras por viver, a vida é longa, excessiva, pode ser entediante, chata, enfadonha, repetitiva – e o que é interessante nela é a busca pela novidade. Tão difícil de encontrar.

São esses os médicos que querem um pedaço do céu e buscam viver de amor sem que se tenha descoberto ainda que sentimento é esse. Mas sabem melhor que nós que a dor é necessária para indicar o que perece.

E a dor eterna é tão impossível quanto a vida eterna. Precisa ser tratada, sim, ou curada, para quem não conhece os sinônimos, nem que seja com a própria morte, que, no fim, é verdade, sempre vencerá a velha batalha da vida. E é bom que seja assim, porque a vida é longa, longa – longa mesmo.

27/06/2018

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