DO FUNDAMENTO DE ALGUMA MORAL

February 16, 2019

 

MOTE PRÓPRIO:

 

Não existe o que é bom ou o que é mau, existe sim o que cabe e o que não cabe – além de existir o que cabe e o que não tem tamanho bastante para caber plenamente.

 

O que é bom? O judeu diz ser o que respeita às leis. O cristão diz ser o que ama ao próximo como a si mesmo. O plutocrata diz ser o dinheiro. O trabalhador forçado diz ser o lazer, etc.

O que é mau? O judeu diz ser o que desrespeita às leis. O cristão diz ser o que odeia ao próximo como a si mesmo ou como a qualquer alteridade. O plutocrata diz ser a miséria. O trabalhador forçado diz ser o trabalho, etc.

O filósofo diz que bom é o que está isento do que seja alheio a si. Bom é o que é puro, branco, límpido; algo que não se mistura, que não adere a nada além nem aquém; e que, por conseguinte, guarda sua força para lutar contra seus próprios demônios. Diz ainda que o homem bom é o que retribui ao bem que lhe fazem com agradecimentos e ao mal que lhe fazem com vingança; e que o homem mau é o que não é capaz de retribuir seja ao bem seja ao mal que lhe fazem.

O cientista diz ser bom o que é possível comprovar. O artista o que é belo, e assim por diante.

Mas bom é o que cabe e não transborda nem excede, se é que existe algo dessa natureza. É o completo. O perfeito.

Assim, um alimento bom é um alimento que sacia na medida do comensal e uma indumentária boa é uma que agrade aos sentidos do que veste e do que pode despir.

O alimento como remédio pode ser um que mata quando a morte é a única saída prevista e esperada pelo comensal. Logo, para esse comensal, esse alimento é bom, ainda que não o preserve numa vida desagradável.

E o que cabe para cada um só pode ser percebido como cabível com base nas sensações do destinatário dessa coisa. Ela pode ser prazerosa ou dolorosa. Para um masoquista, um pontapé pode ser agradável; logo lhe cabe: logo, um pontapé pode ser bom em algumas circunstâncias.

E o contrário também se aplica ali. Um afago ou um beijo pode ser muito desagradável para um masoquista. Logo, o beijo, que é considerado algo muito bom, pode ser tido por algo mau em algumas circunstâncias.

E dizer que não se pode nivelar pelo inferior é um risco nas atualidades, uma vez que mesmo nas civilizações mais avançadas o masoquismo é a regra. Dizer que é uma exceção, um caso à parte pode ser um equívoco, no caso do masoquismo. Ele é a regra na maioria das religiões, das ciências, das filosofias e das artes.

Nada, porém, indica que um corpo esteja disposto a mutilar os seus sentidos, a sua memória, a sua capacidade cognitiva por amor da beleza, do reino dos céus, das tecnologias ou do saber.

Porque neste caso, falaria mais alto a segunda parte do mote, que diz: Bom é o que cabe sem se exceder e mau é o que não tem tamanho para caber plenamente – ou seja, o que deixa faltar.

Sendo assim, bom mesmo é o que é cabível, e mau é tudo quanto falta ou tudo quanto excede. O que equivaleria a dizer que tudo é mau, uma vez que nada é cabível. Com o perdão das generalizações e estereotipadas.

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