TRABALHO SEM TRIPALIUM

March 18, 2019

 Não fosse pela revolução às avessas prenunciada com a tradução da bíblia para o vernáculo dos bárbaros, o Renascimento teria logrado manter ainda hoje o “trabalho” como algo importantíssimo em que se pudesse investir.

Há espécies de formigas (Polyergus Rufescens e Formica Sanguinea) que se dividem entre rainhas e escravizadas.

As formigas senhoras não movem uma palha. Sucumbem à morte caso as escravizadas não lhes levem alimento à boca.

As escravizadas, por algum instinto de conservação da espécie ou o que valha, ou por se enganarem em colônias que não são as suas, se movimentam para alimentar as formigas rainhas.

De modo que no mundo delas, a escravidão é legítima. Talvez falte capacidade à Polyergus de obter seu próprio alimento, o que é possível para a Formica. Ou se a Formica soubesse onde está, ou que está fora de seu lugar, talvez não seria inteligente aderir à escravidão.

Enfim, isto ajuda a meditar sobre o trabalho. Algumas pessoas não têm mesmo capacidade para ele. Lembre-se o leitor de que o pai da psicanálise já asseverava ser impossível curar, ensinar e governar: justamente os trabalhos mais importantes para crianças e idosos, que dificilmente seriam tratados de maneira adequada pela tecnologia pura e simples, como a maioria das outras atividades e faixas etárias.

O que essas atividades têm em comum é que todas elas carecem diretamente da disponibilidade do seu destinatário, que muito frequentemente não quer se curar, não quer aprender, não quer obedecer.

Que digo? Há alguém que não queira se curar? Sim, sobretudo os que não se consideram doentes. Há quem não queira aprender? Sim. Os que não têm afinidade com o professor, interesse pela matéria ensinada ou que pensam já saber tudo. Há quem não queira obedecer? Sim. Os que não confiam em quem comanda.

O filósofo dizia que “o trabalho desonra”; e pelo mesmo viés, cada vez mais as pessoas buscam honra, distinção, diferenciação, reconhecimento, privilégios, prerrogativas, regalias, etc. Sendo assim, a tendência é a de cada vez mais fugirmos do que se chama hoje trabalho.

É que o trabalho é uma violência contra a natureza; qualquer que seja seu traço, ele interfere no andamento normal da vida, senão vejamos: se alguém plantar ou comprar o que se plantou, estará desqualificando a terra ou a natureza; se caçar ou consumir o que se caçou, poderá prejudicar o ecossistema; se usar a língua para escrever ou para falar poderá propiciar a estafa, corromper a língua, e assim por diante para tudo quanto se possa imaginar do que seja remunerado e precisa ser para manter mais um cúmplice.

Não dará conta de toda essa massa de tempo de concentração e atenção a tecnologia sem humanidade, sem intuição, ou melhor, reflexão humana da qualidade mais chã possível: a observação atenta à sabedoria provecta, que nos lembra como são as coisas que nunca deixarão de ser; e das crianças, que falam mais instintivamente e dão pistas para o que nos reserva o futuro e sobre as outras coisas, que mudarão.

Em suma, o trabalho é uma violência necessária tanto contra a natureza como contra a humanidade por tudo que traz de economia de tempo e espaço, possibilidade de troca, sociabilidade, sentimento de utilidade, terapia, etc. Mas é como a bebida alcoólica, tem de ser feito com moderação.

Ao menos em relação aos livres trabalhadores, é mister aposentar um pouco o tripalium para que o trabalho possa estar sempre relacionado à produtividade. Ou, se preferíreis, usá-lo apenas para os supostos “trabalhadores forçados”, que são a maioria!

Please reload

Our Recent Posts

O GRANDE POETA EM NOME DA VIDA!

November 4, 2019

VILÃS E VILÕES!

October 23, 2019

Arthur de Lacerda e a Civilização Desnuda

September 1, 2019

1/1
Please reload

Tags

Please reload

 

©2018 by Pedra de Toque. Proudly created with Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now