A MÚSICA POÉTICA E A POESIA MUSICAL DE BENTO FERRAZ

April 1, 2019

 

(Pedra de Toque): Bento, qual é a fonte, a matéria-prima da sua obra? Alguns poetas se fixam à experiência vivida por outros, outros se fixam aos ídolos na arte, outros ainda à observação de si mesmos, etc. E você, como se considera entre esses poetas? Qual dessas fontes predomina como impulso de criação do seu trabalho?

(Bento Ferraz): A fonte de meu impulso criativo é dupla. Uma introspectiva, de memórias e fatos vivenciados, a outra é a observação do mundo e seus desdobramentos.

 

(Pedra de Toque): Você acredita na obra em suas possibilidades póstumas? Acha que os contemporâneos não nos leem com muito interesse; talvez porque estejamos presentes e precisemos “desaparecer” ou inventarmos uma totalidade para que o nosso trabalho comece a florescer ou ser valorizado de fato, quando muito? 

(Bento Ferraz): Creio que as duas coisas ocorram aleatoriamente. Grandíssimos poetas só tiveram reconhecimento póstumo, mas para citar dois de minha predileção, lembro que Drummond e Bandeira tiveram pleno reconhecimento – e precoce – de suas obras.

 

(Pedra de Toque): O que você espera de um editor? O que significa para você “comunicar um autor” atualmente?

(Bento Ferraz): Tive no ano passado edição de meu livro de poemas Palavra Após Palavra pela Chiado Editora, mas não gostei do desdobramento. Creio que uma editora deve apostar todas as fichas quando da publicação de uma obra.

 

(Pedra de Toque): Tente resumir cada um de seus livros e discos em ordem cronológica. De que trata cada um?

(Bento Ferraz): Minha poética e minhas canções sempre foram ecléticas. No primeiro livro, A Tua Geografia, o primeiro poema é dedicado a Drummond. No primeiro disco, do mesmo ano, 2004, abro com uma homenagem a Janis Joplin. O segundo disco trata do tema do trabalho alienado, em uma canção que é uma de minhas prediletas. Terceiro CD, Narciso ao Espelho, é um mergulho introspectivo, de 2013. E o segundo livro, Palavra Após Palavra, resume meu percurso poético desde a adolescência até 2017, ano da publicação.

 

(Pedra de Toque): O que ficou como legado da experiência da escrita nos dois principais jornais de São Paulo. Existe influência daquele trabalho na sua obra de hoje?

(Bento Ferraz): Não ficou nenhuma influência. Minha atividade jornalística se referia a edição e controle de qualidade.

 

(Pedra de Toque): O que lhe impediu de se aventurar pelas searas da prosa literária, não escreveu nem pretende escrever romance(s), contos, crônicas, etc.? Ficou saturado com a relação direta prosa-grana dos jornais ou há outros motivos?

(Bento Ferraz): Meu foco sempre foi a poesia. Não me sentiria confortável fora dela e da música.

 

(Pedra de Toque): Como diferencia a composição das letras das suas canções da criação nas obras poéticas?

(Bento Ferraz): Quando crio um poema, fico absorto nele. Quando crio uma canção, a melodia chega junto a alguns versos, que trabalho posteriormente.

 

(Pedra de Toque): Como resultado e como resposta de público, qual das duas formas de expressão lhe é mais gratificante?

(Bento Ferraz): Estou explorando atualmente as possibilidades de seguir carreira artística como compositor e intérprete. Isto sem abandonar a vertente poética.

 

(Pedra de Toque): O soneto “Herança”, do seu livro Palavra Após Palavra, trata da “palavra herdada”. Como é a relação de seus pais e outros familiares com a palavra?

(Bento Ferraz): Não há relação. A expressão se refere ao conjunto das palavras, remete à linguística em geral.

 

(Pedra de Toque): Em “Abrupto”, você faz uma importante exaltação à poesia. Como vê o desprezo ou a revolta dos socráticos-platônicos-cristãos contra os poetas?

(Bento Ferraz): Penso que é uma relação muito mal-resolvida. Poesia é vivência e vida.

 

(Pedra de Toque): No poema que dá nome ao livro, “Palavra Após Palavra”, dedicado a Cecília Nepomuceno, o eu-lírico acresce à obra poética a função de “Fazer”, além das duas outras de “Ser” e “Ter”, também importantes. Fale um pouco da relação entre “fazer” e “poetizar”.

(Bento Ferraz): No poema, que também é letra, sintetizei o trabalho cotidiano doméstico de Cecília Nepomuceno, sogra que não conheci a não ser por histórias de família, com o lavrar poético. Uma conjunção de dois mundos que se tocam.

 

(Pedra de Toque): Parece haver uma dificuldade de expressão nos modelos herméticos dos poetas em geral, como no caso dos sonetos, que perpassam o livro Palavra Após Palavra. Fica-se muito afeto da forma ao passo que o conteúdo não parece dizer tudo o que se quis. Você diferentemente parece ter dito tudo nestes sonetos. Disse mesmo ou fica com a sensação de haver calado algo ou muito, neles?

(Bento Ferraz): Sempre fico satisfeito com a expressão final de um poema ou letra. Quando não, vai para o arquivo morto...

 

(Pedra de Toque): Como no poema que diz: “meus poemas são listas de compra”, e em muitos outros, você mantém uma escrita límpida e acessível. É proposital ou tende a escrever mais poemas como, por exemplo, “A Caixa”, que fala de Pandora e requer um leitor mais cultivado?

(Bento Ferraz): Acredito no leitor. Acredito que uma lacuna cultural possa ser preenchida com pesquisa e aquisição de novo cabedal.

 

(Pedra de Toque): A sua poesia corre pelos vãos dos dedos. Tentamos de toda forma rechaçá-la, como fazemos com os poetas com nosso olhar perscrutador, mas não encontramos nada para condená-la. Esta amizade com o leitor vem da genética da alma ou foi adquirida com as críticas?

(Bento Ferraz): Tenho tido poucas críticas sobre o meu trabalho, felizmente todas positivas. Mas elas não definem o todo da tarefa.

 

(Pedra de Toque): Bento, o que é a vida para você?

(Bento Ferraz): É ter lembranças magníficas e embalar sonhos.

 

(Pedra de Toque): Tá bom, convenceu mesmo, amigo Bento. Só nos resta dizer duas coisas: Diga onde podemos adquirir seus discos e seus livros que são super verdadeiros e receba o nosso abraço, que é a única coisa falsa deste blogue.

 

Seguem um poema (soneto) e uma canção (bossa-nova) representativos da arte do poeta:

 

DE TODO AMOR

 

De todo e tal amor se poderá dizer

o quanto de belo, e o tão triste

que haverá de ser o esvanecer

- do essencial - que se aviste.

 

De todo e qualquer tão bem-querer

que seja possível entre as gentes

haverá o fim, e o florescer

da negação do bem que sentes.

 

De mim, creio poderei dizer

ter sentido o sentir mais caro;

inda que forçoso é reconhecer

 

que gosto tão doce fez-se amaro

no conjugar tão simples do viver,

ao perceber amar já ser passado.

 

Bento Ferraz

Jan/2004

 

 

VIVENDO DE SAUDADE

 

Estou vivendo de saudade,

na minha mocidade eu conjuguei morrer...

Mas é que, ao chegar a idade,

descobre-se metade do que é bem-querer.

 

Então, um só substantivo

parece um ente vivo, não deixa esquecer

você, seu rosto, seu sorriso...

e eu fico indeciso,  não sei o que dizer.

 

Talvez, repetindo Noël, escreva no papel

que estou ficando gago...

Mas sei que ao ler o verso meu,

você sabe que é seu, e o sente como afago.

 

Meu velho e pobre coração

– parece até chavão – está que é só estrago...

Porém, ao pensar em você,

eu bebo até viver, e brindo, e sorvo um trago.

 

Não sei, parece que ao beber

eu vou até você... vai ver, eu que te trago.

 

Letra e música: Bento Ferraz

Fev/2003

 

[Os livros do autor e músico compositor Bento Ferraz podem ser adquiridos na página da Amazon (www.amazon.com.br) no formato digital. E todos os livros e discos poderão ser encontrados na loja de arte Caminho que Anda, Rua da Ajuda, 199 – Guararema – São Paulo.].

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