A PALAVRA COMO RESISTÊNCIA: ANGEL CABEZA

(Pedra de Toque): Angel, há algo ou alguém calando a Literatura Brasileira contemporânea? O que ou quem você acha que está fazendo isso?
(Angel Cabeza): Não acredito que a literatura possa ser calada. Ela jamais se calará. Vargas Llosa já disse que a literatura é uma arma, Maiakovski usou a literatura como arma. Na verdade, é a única arma que nós, escritores, temos para enfrentar a vilania do real, mudar o significado das coisas, não nos afogarmos. O que há, e isso é fato, são escritores que usam a literatura como escada para o ego. Assim como em qualquer área, na literatura existe o duelo de egos, os grupos, os desmandes. Mas isso não deve interferir na obra em si.

O lado pessoal de um escritor jamais deve suplantar a sua obra. Se assim fosse, muitos escritores de nossa literatura seriam esquecidos em virtude de suas particularidades.

 

(Pedra de Toque): Você considera as atividades de um escritor propriamente dito como as atividades de outro profissional ou observa alguma diferença?

(Angel Cabeza): Sim e não. Acho que o escritor é um profissional como outro qualquer, sem dúvida. Ele precisa ler, absorver conhecimento e cultura, estudar, conhecer a sua ferramenta. Como dizia João Cabral, “escrever é como catar feijão”. Quanto mais se escreve, mais se desenvolve ferramentas. Não existe apenas a inspiração como pensam alguns. O que diferencia o profissional comum do escritor é a pedra que ele carrega como se fosse um Sísifo. Esse fardo de escrever — talvez esteja eu romantizando o trabalho — é maior no escritor. Há uma latência maior. O escritor muitas vezes olha para o chão, para o ínfimo (que não é o ínfimo com o qual estamos acostumados), para o que está além e que o comum não pode oferecer.

Diferente dos demais profissionais, o escritor precisa ter olhos para observar aquilo que não está lá. Mas como encontrar algo que não existe? Esse é o trabalho.

 

(Pedra de Toque): Cite alguém que você considera um grande autor e que se perdeu em míseras “curtidas”; um que você considera abaixo de medíocre, e foi laureado; um que mereceu o “laureamento” e um que mereceu ser esquecido.

(Angel Cabeza): Essa é uma pergunta complicada, pois teria que apontar o dedo. Não gostaria de ser incisivo com nomes, mas posso dizer que muita gente “badalada” possui menos literatura e mais influência. É preciso antes de tudo ser um leitor, assumir sua literatura. Mas temos uma espécie de prazer na fama que sobrepuja a própria obra. Não há maturação da escrita. Cito, por exemplo, a poeta Orides Fontela. Ela jamais participou de grupos, jamais bajulou quem fosse para ser conhecida. Acabou esquecida. Entretanto, sua literatura é de extrema qualidade estética e agora retornou aos meios literários. Já em muitos escritores contemporâneos vemos muito mais militância do que literatura. Algumas vezes até apadrinhamento. É como a obra conceitual nas artes plásticas: temos muito mais um conceito do que uma obra.

 

(Pedra de Toque): O que você espera de um editor? O que significa para você “comunicar um autor” atualmente?

(Angel Cabeza): Sou do mercado editorial e posso dizer que os escritores não esperam do editor mais do que o profissionalismo e trabalho inerentes ao ofício. A figura elitizada ou romantizada do editor foi ultrapassada pela máquina. Aquela coisa de Maxwell Perkins, que descobre “Fitzgeralds” ou “Hemingways”, acabou. Claro que grandes escritores são descobertos, mas existe muito trabalho por parte do editor. Hoje ele necessita do autor muito mais. Algumas casas editoriais se debruçam em marketing para procurar autores. Não é à toa que plataformas como as da Amazon, de autopublicação, geram best-sellers. A editora, hoje, é mais um meio que um resultado. O trabalho do editor é crucial, claro, pois lapida a obra, transforma a água em vinho. Mas o autor pode escolher com quem faz ou edita. E se o autor souber como funciona, ele mesmo é capaz de produzir, divulgar e ter sua obra conhecida.

Embora eu ainda acredite na figura romantizada e conheça editores excepcionais, sei que é um trabalho árduo e conjunto.

 

(Pedra de Toque): Como você distingue Vidro de Guardados de Sempre Existe um Último Momento? Em qual dos dois se sente mais à vontade? No verso ou na prosa?

(Angel Cabeza): Vidro de Guardados foi meu primeiro livro de poemas. Editei, revisei, divulguei e algumas pessoas me conhecem por ele. Observando com certo distanciamento, acredito que poderia ter sido melhor. A cada livro escrito o antecessor acaba sendo inferior, pois amadurecemos.

Vidro de Guardados foi uma boa experiência. Já o Sempre Existe um Último Momento é uma coletânea de crônicas sobre relacionamento.  

Ambos os estilos me agradam e se complementam de certa forma. A crônica exige um pouco dessa visão poética do escritor. Vide Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e outros grandes cronistas. A diferença é que, para mim, a crônica é mais superficial do que o poema. Nela podemos simplesmente discursar sobre amenidades sem que isso pareça algo tolo.  Não que no poema não possamos ser rasos (os poemas-piada do Oswald ou Millôr, por exemplo), mas a poesia exige um ritmo diferente da crônica. Gosto de ambos e me sinto à vontade nas duas vertentes.

 

(Pedra de Toque): Cite dois autores que mais lhe inspiram na sua criação e na sua produção. Fale um pouco deles e da relação mimética da obra deles com a sua.

(Angel Cabeza): Somos inspirados pelo que lemos, seja na prosa ou na poesia, mas não diria mimetismo, pois não há cópia ou uma aproximação que faça perder a voz, apenas uma reverberação tênue.

É preciso manter a voz livre.

Sou muito grato a Bandeira, Gullar, Adélia Prado, Drummond, Affonso Romano, Marina Colasanti; aos russos e poloneses; ao discurso confessional da poesia norte-americana...

É uma convergência de leituras.

 

(Pedra de Toque): Para quem você escreve?

(Angel Cabeza): Acho que o mais correto seria “para quê?”, mas escrevo para quem quiser ler, para mim, para ressignificar a realidade e não me afogar.

No meu primeiro livro, Vidro de Guardados, existe um poema intitulado “Decálogo”. Nele escrevo os seguintes versos: “(...) escrevo/para me reinventar. (...) a única roupagem/que me veste/ é a palavra (...)”.

 

(Pedra de Toque): O que faz mais, lê outros autores ou escreve?

(Angel Cabeza): Leitor acima de tudo. Não há escrita sem leitura. Quem não lê, não escreve. A consequência da leitura é a escrita.

 

(Pedra de Toque): Você acredita que lidar com os trâmites comerciais do livro é uma atividade que pode interferir de modo desfavorável na criação literária em si?

(Angel Cabeza): De maneira alguma. Acho que se o autor souber, facilita muito mais o entendimento de como funciona o mercado. Acho até necessário que ele saiba. O que pode acontecer é o autor perder o romantismo, pois entenderá como a engrenagem funciona e ela não é tão bela assim.

 

(Pedra de Toque): Angel, o que é a vida?

(Angel Cabeza): A vida é uma criação irregular dos homens, é esse mar que trazemos no peito. Não possui sentido e por isso faz todo sentido (tenho certeza de que me esquecerei disso e definirei de outra forma posteriormente).

 

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