HUMANO-COISA

 

Se outras épocas, como por exemplo, a época do filósofo, eram insuportáveis por diversos motivos, esta época o é também por um motivo que salta aos olhos: a obstinação e persistência em transformar a natureza em algo artificial mesmo quando se chega ao extremo do ridículo. Como se nós a tivéssemos criado, apascentado, dominado totalmente.

Os pensadores rasos dos dias de hoje chegam ao cúmulo de se arrogarem a si o conhecerem plenamente as coisas supremas. Quão ridículos parecemos. Não conhecemos os nossos limites. Espalhamos falácias e mais falácias sem nos darmos conta disso.

Assim, chegamos ao absurdo de escrevermos coisas insensatas como se fossem verdades verdadeiras e bem vestidas. Como se fossem o “bem”. E, pior que isto, como se a verdade fosse o bem ou o bem, a verdade.

Hoje, o que está em voga é subirmos num pequeno tablado e interpretarmos a pantomima dos que estão dentro. E que é que dizemos?

Que os frutos devem ficar mais tempo nas árvores. Os cães devem miar. Os gatos devem latir. Os bandidos devem ser bons. Os excluídos devem ganhar atenção. Os espermatozoides não devem morrer mesmo que não forem os escolhidos ou os acolhidos pelo óvulo. Nada de desperdício. Tudo será útil, necessário e suficiente.

Ah, humanidade. Quanta ingenuidade! Não percebemos que a natureza é esbanjadora. Desperdiça em tudo, em tudo sobra, transborda, destrói tanto quanto constrói; e ao mesmo tempo em tudo é escassa aqui, ali ou acolá.

O homem pode ser o mais elevado entre todos os viventes. Mas começou seu crepúsculo em função dessa insistência em fazer da natureza ou de “deus” – seja lá como são tomadas as forças primordiais – seus adversários, e, depois, seus inimigos, e, mais ainda, seus algozes.

Sim, precisamos cortar os cabelos, fazer a barba, cortar as unhas – mas daí a nos transformarmos em algo sobre-humano (humano-coisa) há que ser apenas no nível do intelecto, não corporal, medicinal, orgânico, material. É aqui que tentamos encontrar nossos limites e observamos que muitos de nossos contemporâneos não encontram os seus.

Muito pelo contrário, fazem o oposto: crescem ou se excedem fisicamente, mas intelectualmente se reduzem a parcos e incipientes estrangeiros em suas próprias terras, e em todas as terras, e a guerra perdura.

Ambos, o ultranaturalista e o ultra-artificialista, se digladiam nas ruas, se difamam nas relações, se odeiam – e não podemos dizer que se atraiam. Ao menos não temos muita curiosidade em saber o que iria e o que viria da cabeça de um aldeão global ultra-artificialista. Apenas o básico para conviver!

Vamos, pois, observar a sobrevivência do humano-coisa, com um riso de deboche (ou despeito), mas não vamos permitir nossa própria extinção!

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