Félix Coronel em Reprise... A Entrevista!

August 1, 2019

 

(Pedra de Toque): O que você espera de um editor? O que significa para você “comunicar um autor” atualmente?

(Félix Coronel): Eita... Foi na jugular. O que espero? E devo responder sinceramente ou de forma politicamente correta? Se o primeiro for afirmativo, não espero nada. Infelizmente o mercado editorial está prostituído (no fundo acho que sempre esteve), e novos autores com grande talento têm pouca ou nenhuma chance de ter alguém que os respalde. Por outro lado, quem achar um editor que realmente aposte na sua capacidade, pode esperar... Contas.

Ok. Explico. Um projeto editorial (não se trata somente de escrever, mas de escrever, criar um projeto de edição, revisão, logo projeto gráfico (que inclui capa, formato, tipo de fonte, quantidade de páginas, etc.), logo lançamento, logo distribuição e venda, enfim) precisa de certo investimento. E esse investimento, se não sair do bolso do autor, deverá sair do bolso do editor. O que esperar de quem quer ganhar um bom dinheiro, de quem quer um bom retorno pelo capital investido? Talvez isso não responda a pergunta, mas pinta a realidade no Brasil. Conheço pouquíssimos “senhores editores” que apostariam em novos e desconhecidos autores, mesmo sendo estes últimos talentosos. Hoje em dia, um novo autor pode “mostrar” a sua arte através das mídias sociais. Também pode evitar cair nas mãos de quem sugará seu rico dinheirinho, com métodos do tipo “print-on-demand” e por aí vai. Há mais possibilidades. Quando eu decidi lançar meu primeiro livro, só tinha a gráfica, o meu PC com Photoshop e os cheques pré-datados que dei para a primeira impressão de mil exemplares. Não tinha ideia do que era vender livros, nem de marketing, nem de como funciona a distribuição, nem de nada.

Mas fui teimoso. E saí às ruas vendendo meu livro. Uma sacola com trinta exemplares, para não pesar muito, e da-lhe bater canela. Me dediquei “full time” a vender esse livro. Após muito esforço e muitos sapatos furados, consegui pagar os cheques pré-datados. E apostei de novo na minha teimosia. Desta vez, foi uma impressão de cinco mil exemplares, e lá fui eu de novo às ruas, aos puteiros, as igrejas, aos botecos, tentar vender meu livro.

“Uivos” vendeu um total de vinte mil exemplares, num período de dois anos. Sofri, chorei, dormi em banco de praça, passei frio, fome, o escambau. Hoje só tenho dois exemplares na minha biblioteca. E não dou, não empresto, nem tiro para mostrar.

Se aprendi malandragem nesse tempo? Pois é óbvio. O Zé Saramago estava fazendo o seu lançamento na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba. E eu fazia o meu lançamento na Livraria do Eleutério. Uma diferença gritante, ululante. Eu, essa pobreza de chorar. Ele? Rodeado da elite “intelectual”.

Mas eu vendi mais do que ele. Enquanto ele se “fresqueava” com as madames, eu vendia cada exemplar com direito a um chope em famoso bar da cidade (tinha arrego com o dono do bar e com as senhoras indignas que ali frequentavam). Resumo: eu vendi 130 exemplares e ele míseros vinte. Para uma tarde de lançamento as cifras são memoráveis.

Obviamente, ele se tornou Prêmio Nobel, eu continuo sendo o mesmo sonhador e pé-rapado.

 

(Pedra de Toque): Foi o Félix Argentino ou o Félix Brasileiro que alcançou esse sucesso, que não se compara com qualquer prêmio? 

(Félix Coronel): Não há um Félix argentino ou brasileiro: há sim, um Félix que absorve o melhor para si, descartando aquilo que não condiz com a sua forma de enxergar o mundo. Existe um Félix que gostava (já não bebo mais) de bebericar um single malt de 25 anos, mas também existe o Félix que senta no meio-fio para compartilhar a sua marmita com um mendigo. O mundo não pode ser separado por limites territoriais, bandeiras ou idiosincrasias. Acho que é muito mais do que isso.

 

(Pedra de Toque): Como você diferencia a tradução e a escrita autoral livre, em prosa ou em versos?

(Felix Coronel): A diferença é abismal. Quando traduzimos, tentamos respeitar o original, ou texto fonte, mas também adequá-lo para o público alvo. Na adequação ou tradução haverá sempre um levíssimo toque do tradutor, como co-autor, que pode divergir de outro tradutor, porque a interpretação difere, e muito.

Isto não significa que esteja errado. Apenas mostra as diferentes percepções sobre um mesmo assunto.

Um exemplo disso são as traduções/adaptações feitas por Afrânio Peixoto sobre haicais de Matsuo Bashô. No seu livro “Trovas Populares Brasileiras”, ele dá o formato “5-7-5” ao haicai como é conhecido hoje (cinco sílabas, sete sílabas, cinco sílabas).

No entanto, Bashô escrevia em kanji, que é uma linguagem composta por ideogramas. E todo mundo sabe que um ideograma representa não fonemas, mas significado concreto. Não há uma forma comparativa, posto que Peixoto esqueceu-se do lado zen da coisa toda.

O haicai ou haiku forma parte intrínseca da filosofia zen budista, da busca do “satori”. É a percepção do agora, da verdadeira natureza da realidade e de si mesmo. Diz Peixoto no prefácio: "Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haicai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível”.

Resumindo: Peixoto (deve estar se revirando com tanto desrespeito!) abriu as portas para que Guilherme de Almeida e posteriormente Paulo Leminski, criassem os tercetos com rima, tão brasileiros, mas que nada têm a ver com a poesia zen. O outro “perverso” foi o mexicano Octavio Paz, e os haicais em espanhol.

Note-se bem, e não darei posteriores explicações. Não desmereço ninguém. Muito pelo contrário. Através da observação e do estudo da obra de cada um dos citados é que eu fiz minhas próprias conclusões. Tanto como tradutor, quanto criador de algumas singelas linhas que alguns chamam de prosa e poesia.

Tenho traduzido muita coisa de Pablo Neruda, do nicaraguense Ernesto Cardenal, enfim, e confesso que em diversas oportunidades me vi tentado a “copiar” certa forma de combinação de pensamentos. Resisti valorosamente. Creio mais na minha possibilidade de expressão. Haverá na escrita autoral alguma influência das leituras realizadas, isto é uma realidade. Porém, acredito que todo aquele que tem como ofício ser tradutor, e que se lança à aventura de escrever, tenta de todo jeito fugir dos parâmetros ou formas de escrita dos autores traduzidos. Tentará criar seu próprio estilo, a sua própria forma de comunicação.

 

(Pedra de Toque): Desde quando tem contato direto ou indireto com o Brasil, como compara as culturas brasileira e argentina?

(Félix Coronel): Não mais as comparo. Deixei disso a tarde em que tive uma terrível indigestão por causa de uma feijoada (eu nem sabia que existia algo tão bom!).

Durante o século XX, Argentina foi selvagemente “europeizada”. Já teve época em que o argentino médio lia um ou dois livros por mês, e que as ruas de Buenos Aires tinham mais livrarias do que bares. Os tempos mudam, as culturas também. Mudou o sistema educacional, mudaram os parâmetros individuais, mudou o comportamento social, a forma de expressão, enfim.

Uma forma simplista, muito simplista, é dizer que a cultura argentina que sobreviveu ao caos político e social de inícios do milênio focou-se na Europa. O Brasil, nos Estados Unidos. Na Argentina o rap não pegou tão fundo, mas em contrapartida ouve-se “cumbia eletrônica” em todas as esquinas. Houve uma espécie de downgrade cultural, mas isto é generalizado. Toda a América Latina sofre de burrice sintomática crônica. Como pode-se perceber, foi um plano muito bem bolado por aqueles que implantaram todas as ditaduras militares na América Latina das décadas de 1960/70. Mas isso ficará para discussão em outra oportunidade.

Hoje em dia, os mesmos resultados medíocres obtidos na escola pública brasileira são obtidos também na Argentina. Talvez até piores, se levarmos em conta a densidade populacional de cada país. A enorme desigualdade social também tem um pouco de culpa nisto. Lembrei de Ghandi: “A pior forma de violência é a pobreza”.     

 

(Pedra de Toque): Acha que a mundialização do conhecimento pode levar a cultura brasileira ao colapso, se é que ela ainda não chegou a isso? Nós não poderíamos estar dispostos a conhecer nossa terra um pouco mais do que fazemos, em vez de consumirmos muito mais o “produto cultural” de outros países, sem dilema e sem tanta desproporção?

O primeiro que devemos nos perguntar é: “O que é cultura?”. Em toda instituição ou agrupação civil de índole cultural fala-se, logicamente, sobre cultura.  Isso é claro e evidente, até para os mais desavisados. Porém, existe um ponto que não foi, não é, e se não for colocado em pauta, não será analisado nunca. E esse ponto refere-se justamente ao significado essencial da palavra “cultura”.

Para muitos, cultura é o conjunto de informação sobre literatura, arte, conhecimentos gerais, enfim, que faz com que um indivíduo seja incluído entre os magros 3,5% da população brasileira que leem uma média de 3 (três) livros ao ano, de acordo com estatísticas apresentadas por vários meios na 24ª Bienal Internacional do Livro, realizada em São Paulo em 2016.

Eu, humilde produto evolutivo dos primatas, costumo dizer que a cultura é uma mulher de duas faces.

A razão? Muito simples. Uma das faces, objetiva. Outra, subjetiva. A cultura mostra seu rosto objetivo nas obras culturais produzidas por um grupo social, cuja criação incessante representa para o homem comum que compõe este segmento, a criação do seu próprio mundo, do espaço decididamente vital no qual nos movemos e evoluímos.

Ou não.

Tudo isso dependerá da aceitação que o entorno social dê a essas criações.

Por outro lado, entendo que num grupo social onde não exista expressão e representatividade sobre a criação de obras culturais, a presença do homem se anula. E isto acontece justamente porque o ser humano é um “bicho social”, que precisa estar ao redor dos seus congêneres para obter o seu próprio desenvolvimento, e porque a identidade de um grupo social é necessariamente construída pelas obras culturais, pois só elas atestam ao homem sua essência e o sentido da sua presença neste mundo: a presença de um sujeito, um elemento, que consegue compreender, transformar e dar significado às suas ações.

Assim, o ser humano se realiza como ser humano ao exercitar o ato da criação cultural ou de compreensão de uma obra de cultura.

Mas claro, aqui cabe abrir um pequeno parêntese: somos capazes de criar a nossa própria cultura, e deixar de olhar para fora, pensando que tudo o que é feito nos grandes centros é melhor que as nossas próprias produções?

É aqui que a cultura mostra a sua outra face: a face subjetiva.

Esta face define o plano de realização do homem como sendo parte componente do processo cultural. Se o ser humano se reconhece como sendo integrante de um grupo social por cultivar “certos” costumes, por exemplo, somente a compreensão do seu sentido lhe permitirá realizar-se.

Quer exemplos claros?

Lá vai pedrada: Por que os franceses bebem uma média de 80 litros de vinho ao ano, e nós, brasileiros, bebemos 2?

Por que razão o “chimarrão” é reconhecidamente uma bebida típica dos gaúchos?

O indivíduo regride a estados e comportamentos, diria eu, “infra-humanos”, quando permanece alheio ao significado do mundo cultural que o envolve. Se o sentido, por sua vez, se objetiva em obras culturais, ele dá a todo este conjunto uma espécie de sinal, de marca registrada, fazendo com que não seja apenas um sentido compreendido, mas também um sentido comunicado.

Desta forma pode-se se estabelecer o caráter social e histórico da cultura.

Enfim, desculpe.

Acho que estou excedendo a minha própria capacidade de raciocínio.

Em diversas oportunidades tenho lido aqui e acolá que “o homem é um ser histórico e social”.

O ser humano é histórico porque possui o poder de criar cultura; desta forma ele se compreende a si mesmo e comunica isto a outro ser humano. Eis aqui o sentido mesmo que se encarna na criação cultural. A cultura é, assim, a própria história de um grupo social.

Tenho dupla nacionalidade: sou argentino, e também sou brasileiro, com muitíssimo orgulho. No entanto, me causa desconforto quando um brasileiro quer dar pitaco sobre a vida na Venezuela, por exemplo, mas não é capaz de ver as goteiras na escola pública que frequenta o seu filho. Nem tudo é culpa do governo: grande parte dos males que nos afetam surgem da pérfida opção de praticar “o jeitinho brasileiro”.

Sempre o quintal do vizinho será mais bonito do que o nosso, dizia meu pai. E tinha razão. Precisamos ser mais gestores do conhecimento social e menos lecionadores. Precisamos agir mais. Lembrei do Paulo Freire em “A Importância do Ato de Ler”: “[...] Não foi, por exemplo – costumo sempre dizer -, a educação burguesa a que criou ou informou a burguesia, mas a burguesia que, chegando ao poder, teve o poder de sistematizar sua educação.”

 

(Pedra de Toque): É justamente disso que trata a pergunta, da cultura como um modus vivendi: se o francês se regala no vinho, o gaúcho no chimarrão e o paulista no café, a quem interessaria “mudar” esse estado “natural” ou “cultural” de coisas?

(Félix Coronel): A resposta é óbvia: interessa a quem quer, de alguma forma, interferir nesse “estado natural” da cultura, e obter lucro com isso. Veja: cultural e tradicionalmente, a bebida destilada por excelência no Brasil é a cachaça, desde o Iapoque ao Chuí, e conheço muito bem as duas pontas. No entanto, se você sair um sábado à noite, verá que milhares de jovens consomem qualquer uísque fuleiro... com energético.

O único energético genuinamente brasileiro que conheço é o guaraná, e haverá quem fale de catuaba. Não falo do refrigerante, falo da raíz, usada antigamente por indígenas quando adentravam na selva em incursões de caça.

O fabricante do uísque fuleiro ganha, porque conseguiu, através da modificação do “estado natural” das coisas, colocar o seu veneninho em substituição da aguardente de cana-de-açúcar. O fabricante de energético ganha porque conseguiu colocar no mercado uma bebida insuportável, mas que os jovens gostam de misturar com bebidas que acham ‘fortes”, enfim.

Poderia passar horas mencionando coisas deste tipo. Porém, vou tentar resumir um pouco a questão. Consumimos o de fora, via de regra, por falta de incentivo ao que é produzido aqui dentro.

 

 (Pedra de Toque): Tente resumir cada um de seus livros em ordem cronológica. De que trata cada um?

(Félix Coronel): 1997: Contos de Amor e Loucura. São contos baseados em coisas que vi – e que vivi – andando por aí na vida. Às vezes me parece que toda forma de amor acaba sendo trágica, por assim dizer. Não acredito na perenidade dos estados felizes. E nem dos estados trágicos. Não há mais exemplares. Nem para mim.

1999: Uivos. Uivos baseia-se numa série de escritos franceses de 1700 e lá vai pedrada, que achei por acaso na Biblioteca Nacional de Buenos Aires, sobre licântropos. Comprei a ideia e, anos depois, ao observar meu cachorro Xirú (um akita muito porreta), notei que o dedinho à toa dos cães está mais próximo da pata, quanto mais primitivo for o cão. Lembremos que os akitas são apenas lobos domesticados pelos japoneses da região montanhesa de Akita. Há dois tipos: o akita-inú, ou akita japonês, e o akita americano. O meu Xirú (meu parceiro, em mbyá-guarani) era japonês, só não falava. Ganhei de uma família japonesa do norte do Paraná. O akita americano é um híbrido, de maior tamanho, mas já mais canis do que lobo.

É um cão extremamente primitivo, não late, e é ele que escolhe a quem servir. Foi minha escola, para entender muitas coisas irracionais.

O livro foi escrito numa época bastante conturbada da minha vida, onde bebia vodka, mas em quantidades não toleradas socialmente. A época durou pouco, mas deixou lembranças. Trata da existência de uma raça de animais predadores semelhantes aos cães, mas com capacidades e métodos de comunicação diferentes. Ao ser perguntado num programa da TV curitibana sobre o tempo que demorei em escrever, respondi com sinceridade: “cento e oitenta garrafas de vodka”. Ficou por conta da entrevistadora saber em que tempo eu bebi essa quantidade. Essa noite tive real consciência da morosidade das pessoas. Como se atreveram a ler algo que não tinha um único parágrafo escrito com a cabeça no lugar? Gente louca, ninguém entende.

2002: Cala Boca, Moleque! São crônicas que o editor-chefe do jornal onde eu escrevia diariamente não quis publicar. Dali o título.

2003: Como é que é? Também crônicas que o editor-chefe não quis publicar ao longo do ano de publicação.

2007: Ideias Soltas. Um aglomerado de contos, crônicas e poemas escritos durante esse ano.

2014: Guaratubanas. Teve edição bilíngue, em português e espanhol. São haicais e poemas, escritos nesse ano.

2016: Seleção de Haicais. Não teve edição impressa. São haicais e haibun.

Há ainda dois projetos, Discípulo da Estrada e Seleção de Poemas, mas só Deus sabe quando sairão da gaveta.

 

(Pedra de Toque): O Discípulo da Estrada deve estar fervilhando com suas viagens atuais entre Argentina e Brasil, não é?

(Félix Coronel): Não. “Discípulo da estrada” possui escritos (haibun e haicais) que produzi numa fase boa da minha vida, quando morava frente ao mar em Guaratuba. Talvez você tenha notado que a grande maioria das religiões tem uma espécie de terço, onde cada conta é uma oração, ou algo semelhante.

Os cristãos têm o terço, os budistas têm também, os muçulmanos têm o marbaha, e assim por diante. A função desse terço não é decorativa. Tentou-se, desde tempos imemoriais, alcançar o que no Budismo chama-se “satori”. Pensar em nada, ter a mente em branco, e perceber que o Universo forma parte de nós, e vice-versa. Os cristãos conseguem alcançar esse estado através da oração contínua, da repetição constante. Os árabes também, através da repetição de suras, de forma incansável. Desde um ponto de vista mais simples, “Discípulo da Estrada” mostra o que aprendi com isso.  

Viajo continuamente entre o Brasil e a Argentina, e sempre de carro. Jamais em outros meios de transporte. Isto me permite mais contato com as pessoas, me permite parar onde eu bem entender e olhar a paisagem ou tomar chimarrão ou água fresca com uma pessoa qualquer, à beira da estrada. Me alimento disso. A cada dois meses viajo 2400 km de ida e outro tanto de volta, por questões laborais e compromissos pessoais. Quem sabe no futuro escreva algo sobre essa experiência maravilhosa que é viajar pela Argentina, Paraguai e parte do Brasil.

 

 (Pedra de Toque): Quais são suas fontes de pesquisa criativa e produtiva? Onde vai buscar mais ideias para sua obra? Vêm de outros livros e autores ou da própria vivência? Que é que predomina?

(Félix Coronel): Sou um sujeito profundamente observador. E também leio muito. Tenho uma minibiblioteca no banheiro do escritório. Basicamente, para exemplificar a coisa, a passagem de um carro muito perto do meio-fio já é uma ideia. Gosto de conversar, e também gosto de ouvir. Perdi a mania de decorar trechos de autores famosos porque, no fundo, a gente lê, mas só apreende aquilo que lhe for de alguma significância para seu dia-a-dia. Sim, eu sei, a teoria é simplista. Mas é que eu aprendi a ser simples também. Odeio aquele famoso: “Fulano disse tal coisa”. Cito aquilo que me comoveu em algum momento, ou que significou algo para mim naquele momento. E a citação é geralmente para completar algum pensamento que já está formulado. Da mesma forma, escrevo com base nas minhas ideias surgidas sobre o observado, sobre o vivido, sobre o que poderia ter sido ou foi realmente. Gosto também de viajar muito. E de parar e conversar com as pessoas. Jamais você poderá dizer que conhece o Brasil, só por ter visitado o Cristo Redentor. O conhecerá realmente quando souber diferenciar um sotaque nordestino de um sotaque gaúcho, por exemplo, ou quando tiver comido galinhada no mais profundo de uma favela. É dali que surgem crônicas, contos, poemas, et cetera. O convívio com esse mundo exterior tão agitado é para mim uma fonte inesgotável de ideias.

 

 

(Pedra de Toque): O que você acha desses cursos de “escrita”? Acha possível “ensinar a ser escritor” em um curso?

(Félix Coronel): Tudo é válido, mas nem tudo me convém. Isso está na Bíblia, literatura popular.

Ninguém ensina a ser escritor. Isso é papo furado de quem quer ganhar uns trocados em cima de quem está cheio de ilusões. Há, sim, algumas técnicas de escrita que são muito válidas. Para mim foi de muita valia ler o material utilizado nos cursos de jornalismo, por exemplo. Não cursei jornalismo, apenas li a literatura recomendada pelos professores. Mas teve muita serventia quando quis criar a minha própria forma de comunicação. E que conste: eu não sou escritor. Eu só escrevo. Quem diz que sou escritor são as pessoas. E o povo fala cada coisa, que nem dá para levar muito a sério.

Escrever é sinônimo de trabalho, releitura, revisão e correção. Assim de fácil. Por outro lado, acho válido que alguém ensine como estruturar um pensamento numa folha de papel. Porém, se seguirmos à risca aquilo que foi ensinado, corremos o risco de perder a originalidade, essa coisa sedutora de criar em cima do que já foi estabelecido.

 

(Pedra de Toque): Felix, o que é a vida?

(Félix Coronel): Vou responder com uma parte de “A Vida é Sonho” de Calderón de la Barca, escrito em 1636:

O que é a vida? Um frenesi.

O que é a vida? Uma ilusão,

uma sombra, uma ficção,

e o maior bem é pequeno:

que toda a vida é sonho,

e os sonhos, sonhos são.

 

(Pedra de Toque): Quando Calderón escreveu isto ainda não tínhamos nem desmamado, precisamos de um novo renascimento: o que é a vida, Félix?

Uma máquina de lavar sem manual. Você aprende a usar conforme vai estragando roupa boa.

O que é a vida? Eu sei lá... Só sei que é linda, e que é curta. Curta demais. Deveríamos ter mais tempo para nos apaixonar mais vezes, e de pessoas bem diferentes, tempo para desfrutar de mais dias de chuva brincando com o cachorro e de mais dias de sol alimentando golfinhos. Ainda estou nessa aventura louca de tentar descobrir o que é a vida realmente.

 

Os livros de Félix Coronel podem ser adquiridos na Estante Virtual.

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