O GRANDE POETA EM NOME DA VIDA!

November 4, 2019

 

 

(Pedra de Toque): Montesquieu afirma em sua filosofia que “os autores são tolos que, não satisfeitos em aborrecer as gerações de sua época, insistem em aborrecer as gerações futuras”. Que é que vem em sua mente com base nessa afirmação?

(Léo de Carvalho): [Gargalhadas!] Eu acho o seguinte: que nós, na nossa geração (temos uma identidade próxima, por isso eu falo nossa época) não temos essa coisa de aborrecer, com a nossa vivência. As mesmas dúvidas que nós temos hoje, as pessoas de épocas futuras vão ter. Não vejo aborrecimento. Pensamos hoje como pensaremos no futuro. Montesquieu foi infeliz no que ele colocou. O pensamento das épocas é uma repetição. Daqui a cinquenta anos, estarão pensando as mesmas coisas, com outras palavras. Se o escritor aborreceu, foi na cabeça dele. Ele achava que ele aborrecia. Eu não acho que escrevendo eu aborreço. Isso deve ser uma perturbação de alguns autores.

 

(Pedra de Toque): por que você não parece se importar tanto assim com sua obra escrita? Considera-a secundária? E se isto for verdade, o que sempre considerará primário ou primordial na vida?

(Léo de Carvalho): Eu não acho secundário o que eu escrevi. É o momento. É o que eu falei na pergunta anterior. As pessoas podem viver tudo isso futuramente. Isto não quer dizer que são coisas ultrapassadas ou menos importantes. As coisas são mais proveitosas para mim hoje do que na época em que escrevi. Na época da escrita, eu achava uma banalidade. Eu queria era viver. Mas a escrita foi como se eu estivesse fazendo uma reserva de felicidade, estava fazendo um tipo de diário, uma biografia. Eu conseguia viver a minha vida sexual, minha vida familiar, minha vida carnavalesca. No carnaval, simplesmente eu ia para pular o carnaval. A vida sexual tinha o momento e o lugar certo. Mas quando estava com os familiares, eram meus familiares. Tudo o que eu fazia tinha um sentido. Se estivesse escrevendo hoje, seria com uma tonalidade diferente, houve uma transformação. Mas eu não consigo mais escrever como naquela época. Foi uma coisa que não mudou. Não tenho mais paciência. Mas o primordial pra mim é a pintura. Eu sei que meu talento não era escrever. Meu talento era pintar. Por isso que eu falo tão mal da pintura que vejo fazerem hoje.

 

(Pedra de Toque): como você encara a solidão hoje? O que lhe vem em mente ao observar como se manifestou sobre ela em suas diversas facetas, nO Sol Escuro?

(Léo de Carvalho): Não existe solidão pra mim. Nunca existiu. Existiu assim: era a solidão de outras pessoas. Não eu. Nunca fui eu. Eu sentia que as pessoas tinham essa solidão. Mas não falavam. Guardavam no peito aquela coisa. Quando eu falo isso, as pessoas não acreditam. Não é do meu íntimo, não é da minha pessoa. Eu me colocava no lugar das pessoas, que não tinham palavras para se expressar. Não existe solidão hoje. As pessoas dizem: “Mentira! Você não se sente solitário? Fica nos seus afazeres e não sente solidão?! Como?!" Sinto mesmo é falta de calor humano. Não é fetiche. Pensei hoje mesmo sobre isso. Como as pessoas podem sentir necessidade de procurar uma coisa como um fetiche? Filmes, coisas banais, sem você olhar a pessoa nos olhos, sentir o perfume, o odor, seja lá qual for [risos], como se sente uma árvore. Sinto necessidade de coisas reais com seres reais. Nem o automóvel nunca me deu prazer. Porque quando me deu prazer uma vez, o carro ficou no morro balançando. Nunca senti nada pelo automóvel. Meu silêncio não indica solidão, fico observando. Às vezes é muito mais proveitoso ficar em silêncio pra não magoar ninguém. Escrevendo eu falo o que quero da vida.

 

(Pedra de Toque): você se sente (ou se sentia quando escrevia com mais frequência) sem interlocutor porque sempre residiu numa região financeira, intelectual e culturalmente desclassificada ou se sentiria assim também se tivesse nascido por exemplo numa cidade da Noruega?

(Léo de Carvalho): A mesma coisa. Sentiria o mesmo em Oslo, em Nova Iorque, em Paris. Não teria interlocutor lá. Sendo ricas ou pobres, as pessoas não dão importância ao que a gente escreve. Elas fingem, dizem que “é bom”, que “é lindo”, mas não questionam, não fazem qualquer crítica destrutiva ou construtiva. Eu queria que a pessoa chegasse pra mim e falasse qualquer coisa a respeito. O filólogo que transcreveu meu livro me permitiu reconhecer minha fraqueza na gramática. Sei onde erro, mas poderia saber mais. E me sinto sem interlocutor hoje, aqui e em qualquer lugar.

 

(Pedra de Toque): de quais autores de versos rimados você se recorda? De onde surgiu a prosa poética, mais comum do que o verso em sua obra? Não lhe agradam os versos rimados? Ou não lhe agradam outros tipos de versos, os versos sem metro, por exemplos, muitos de Carlos Drummond de Andrade, outros de Manuel de Barros, etc.?

(Léo de Carvalho): É, mesmo sem escrever rimando, eu acho que tem uma certa semelhança com a poesia em verso, dá a entender que busco e que sugiro o verso. E eu não descarto Drummond, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, tem tantos… Não acho feio o que eles escrevem. É a época em que eles escreveram que ditou o que eles faziam. Minha escolha pela prosa poética foi inconsciente. Na verdade, nem sei o nome que dou pro meu poema. Com quinze anos, fiz o meu primeiro texto. Comecei as amizades com adolescentes, levávamos o som no caminho da escola. Hoje é fone de ouvido. É quando você sente uma coisa e não quer mostrar pra ninguém, mas sabe como é bom o que você escreveu; eu sabia que era promissor o que eu escrevi. Duraria décadas, daqui a cinquenta anos teria o mesmo significado. Por isso, deixava pedacinhos de papel jogados assim numa caixa, tinha fundamento tudo aquilo. Encadernei para o futuro os melhores textos, mas os pedacinhos de papel eram os efêmeros, eu deixava de lado. Enfim, gosto mais de prosa. No geral, tenho mais paciência de ler a prosa dos outros do que os versos. Os encadernados eu deixei para um futuro mais distante. Porque acho que segue uma valorização. A civilização é que não iria acolher muito bem. E a tendência do mundo não é a de se civilizar cada vez mais. [risos]

 

(Pedra de Toque): qual é a fonte, a matéria-prima da sua obra? Alguns poetas se fixam à experiência vivida por outros, outros se fixam aos ídolos na arte, outros ainda à observação de si mesmos, etc. E você, como se considera entre esses poetas? Qual dessas fontes predomina como impulso de criação do seu trabalho?

(Léo de Carvalho): Eu acho que, no que escrevo, eu nunca senti de verdade tudo aquilo. Eu sentia o que outras pessoas sentiam. Era aquilo que eu imaginava ser exatamente o que elas estavam sentindo, como se fosse eu que estivesse vivendo os fatos. Mas sabendo que eu estava longe daquilo. É tudo sentimento alheio e nem sei quais as palavras que aquelas pessoas usariam. Não falo da minha própria vida, da minha própria sexualidade; é a história de uma outra pessoa como se fosse eu. Ali, o meu eu não importa. E eu nunca falei isso pra ninguém, viu?

 

(Pedra de Toque): você pretende publicar mais um livro? Como ele seria?

(Léo de Carvalho): Seriam crônicas, com aqueles personagens reais da minha infância, aliás, bem engraçados. Em breve.

 

(Pedra de Toque): o que diria a um neófito em quem você considerasse uma veia poética vigorosa e que lhe perguntasse o que ele tinha de fazer e evitar para escrever como você nO Sol Escuro?

(Léo de Carvalho): Usar umas palavras bem populares, nada de rebuscado; assim fica mais fácil a compreensão: o que ele ouve da mãe, do pai, dos avós, dos tios; quem pretende escrever poesia, mesmo que seja de uma casta nobre, não vai ter dificuldade em se expressar na linguagem de qualquer lugar. Eu usei palavras nos meus poemas e nem me lembro mais o significado delas, de tão rebuscadas. Me arrependi. O que evitar é pensar antes de repetir as expressões, os assuntos, as palavras. A gente se incomoda com repetições demais no mesmo livro. Tudo precisa ser natural como um quadro. Acho que um quadro é natural. Porque fico com a imagem na minha mente, e é da natureza humana imaginar. Um quadro não é só um artifício, não. Aquela capa dO Sol Escuro, que quero produzir, está em minha cabeça e não muda nem é pra mudar.

 

(Pedra de Toque): homenagem a Antônio Abujamra, o que é a vida?

(Léo de Carvalho) [Risos] Fico tão… A vida é tão maravilhosa, não tem coisa melhor do que viver, seja de que forma for, seja deficiente físico, visual, só saber viver que...

(Pedra de Toque): O que é a vida?

Sei lá...é

(Pedra de Toque): Dá cá um abraço que é a única coisa falsa deste blogue.

 

O livro O Sol Escuro, de Léo de Carvalho pode ser adquirido através do Clube de Autores, www.clubedeautores.com.br.

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