Oficina de Ficção: histórias contadas
- João Rosa de Castro
- 30 de jul.
- 4 min de leitura

…Meu primeiro dia na Brightness. Cheguei às oito a Alphaville. Não bebi o café com baunilha de outras vezes; fui direto “para o novo trabalho”. Fiquei esperando na recepção, porque Annie ainda não tinha chegado. Passados uns dez minutos, ela assomou na porta do prédio e pediu que esperássemos na recepção, pois já nos chamaria. Esperássemos sim, pois na outra poltrona lia uma revista uma bela ragazza que iria começar a trabalhar lá também. Depois que Annie subiu, puxei conversa e descobri seu nome, Rosa, e disse o meu. Ela acolheu meu ar curioso, porém comedido, e também me fazia perguntas sobre o trabalho que eu ia começar e coisas assim; subimos ao sexto andar. Na sala de reuniões, a conversa ficou mais confortável. Ela contava que tinha estudado publicidade, que era descendente de alemães e, por isso, falava a língua germânica; pareceu entusiasmada como eu com o primeiro dia. Eu com ar interessado ia perguntando mais e mais sobre ela até chegar Daniela. As atenções de Rosa se voltaram imediatamente para esta última, que se sentou à minha esquerda e conversava timidamente sem que me olhasse. Fui percebendo como eu posso ser facilmente preterido dentre as mulheres, até que Annie entrou na sala e pediu que a acompanhássemos até o quarto andar para me “despachar” e fazer lá as apresentações.
Annie me entregou para Conceição e levou as outras duas de volta consigo. Conceição pediu que eu ficasse à baia logo à direita da sua. Seria aquele o meu computador, que estava sem mouse. Ceiça olhou a sua volta como se procurasse quem lhe acudisse. Mas teve a ideia de tirar o mouse do segundo computador à sua direita. Eu como não quisesse que ela se abaixasse e se “estrangulasse” até os fundos da CPU, tomei a iniciativa de eu mesmo trocar o mouse, me estrangulando assim. Conceição pediu que Eucles me mostrasse o Bridging, programa que usavam, e que eu não conhecia. Pediu que eu me encostasse à baia dele e somente observasse seu trabalho, por alguns minutos, até que Bill nos convocasse para a reunião dos novos funcionários. Eucles não teve jeito, quis me apresentar filosoficamente as funções do programa, mas Conceição o interrompeu e pediu que eu ficasse com a bela Abigail. Que sorte! Novamente, e por coincidência, a Abigail seria o meu anjo como fora na Prince House onde já trabalháramos juntos. Bom foi que depois de esgotar todas as informações que ela podia me transmitir, ficamos fofocando sobre o pessoal de São Paulo de outrora, falando mal dos maldosos e perguntando sobre os bondosos. Depois falamos sobre arte, cinema e filosofia. Abigail gosta de Schopenhauer. Nunca tinha encontrado ninguém que falasse dele com brilho nos olhos como vi nos dela. Elogiou também Wilde e Nietzsche. Depois esculhambou praticamente todos os poucos professores que conheço da USP, menos a Laura. Disse que eles são todos socialistas e fraternos, mas na verdade só usam por demais Dolce & Gabana ou Armani e quejandos. “Tudo demagogia”, segundo ela dizia.
O papo estava bom, mas foi interrompido. Eu e Abigail subimos ao sexto andar novamente, pois como trabalhava lá havia menos de um mês, ela também participaria da reunião. Fomos. Levine, nosso chefe, também subiu.
Lá chegados, nos acomodamos na sala de reuniões, o datashow já estava ligado, e Bill, diretor da empresa, já aguardava para falar por mais ou menos uma hora sobre os clientes, os objetivos e metas, o organograma e por fim o regulamento da Brightness. Eu virava e mexia bocejava escondido e olhava para os demais observando os movimentos. Apenas eu e Levine alternávamos com os braços ou as mãos sobre a mesa. Durante todo o tempo, as três jovens mantiveram as mãos sobre as coxas — deviam estar famintas, esperando o garçom. Fomos dispensados para o almoço.
Era quarta-feira: dia de feijoada. Confesso que fiquei um tanto constrangido ao comer diante de tanta gente; o único homem almoçando com tantas mulheres e comendo feijoada ainda por cima. Depois do almoço, cinco dessas mulheres foram ver sapatos numa loja e ficamos apenas eu, Conceição e Alice.
Conceição e eu fumávamos um cigarro após o outro. As duas falavam muito, ora de coisas que eu podia entender ora por códigos de mulher, e sobre “localização”, apelido para a tradução, que eu só conhecera de perto na Brightness. Quando sentia que eu começava a ficar ausente, Conceição fazia uma pergunta ou um comentário para que eu pudesse entender sobre o que falavam. Nessa conversa, disse ter pensado que eu tinha sido indicado por Abigail para o cargo. Mas eu disse que meu reencontro com ela fora pura coincidência. Conceição fez algumas críticas à empresa, mas também apontou diversas vantagens em trabalhar lá. Passada nossa hora e meia de almoço, fomos andando devagar pelo centro comercial observando casais se beijando na praça do chafariz.
Alice tinha prometido que dali não passava: “ia me pôr no tronco logo naquela primeira tarde de trabalho”. E assim fez, quando chegamos. Me deu um texto sobre balística para traduzir. Eram descrições pormenorizadas de revólveres e metralhadoras do Exército. Pois então comecei bem. Um texto desafiador; cheio de termos inauditos. Porém, uma hora depois que eu já estava imerso nele, Alice propôs que eu traduzisse outro, mais urgente, da área financeira. Muito bom. Era um texto enxuto e tranquilo. Fiquei nele até as seis. Foi mais ou menos assim o meu primeiro dia na Brightness. Foi como o jardim de infância que eu não tivera em criança…
In: CASTRO, João Rosa de. Oficina de Ficção. 2ª Edição. São Paulo: Clube de Autores, 2019. Disponível em <https://clubedeautores.com.br/livro/oficina-de-ficcao >
Comentários